A 1ª edição do programa Jornal da Top, da Rede Top FM, que em Campo Grande pode ser sintonizada na 88,9 FM, entrevistou, nesta quinta-feira (27), a psicóloga Gisele Oliveira, que abordou a violência contra as mulheres no contexto do “Agosto Lilás”, focando na identificação de sinais, tipos de violência e estratégias para romper o ciclo abusivo, além de apresentar o programa ProEVA (Programa de Empoderamento à Vítima de Abuso).
“É importante a gente entender que existem relações tóxicas e existem relações abusivas. Nem toda relação tóxica é abusiva, é violenta, mas é um indício para a gente entender que pode caminhar por uma relação abusiva. Uma relação onde existe muito ciúme, muita posse, muito controle, muita manipulação e, às vezes, começa de forma muito sutil, sinais sutis, pequenos comentários, pequenas críticas que vão deixando essa mulher com baixa estima, com insegurança em relação ao seu próprio valor”, destacou.
Ela completou que hoje está muito comum o “gaslighting”, que é uma forma de manipulação psicológica e abuso emocional em que agressor distorce a realidade e manipula informações para fazer a vítima duvidar de sua própria sanidade, memória e percepções. “É aquela manipulação que faz a mulher perder a percepção sobre si mesma, tipo, será que é eu mesmo que estou errada? Será que o problema sou eu nessa relação? Ele vai fazendo comentários tão sutis que vai fazendo com que essa mulher se sinta sempre culpada”, alertou.
Na entrevista, a profissional citou como exemplo o fato de o parceiro sumir por dias e depois acusá-la de paranoia ou loucura ao ser questionado. “Nessas situações, as mulheres frequentemente estão apaixonadas e se envolvem rapidamente, sentindo-se especiais e protegidas inicialmente. Os abusadores são muitas vezes envolventes, criando uma dependência emocional. O ciclo se repete e intensifica ao longo do tempo, começando com momentos sutis que a mulher tende a relevar, como afirmando para si mesma que o companheiro deve estar nervoso com o trabalho”, pontuou.
Gisele Oliveira pontuou que, na maioria das vezes, a relação escala para a agressividade, hostilidade, gritos, levantamento de voz e destruição de objetos. “O feminicídio é o último estágio e a mulher não deve esperar chegar a esse ponto. Muitas vezes, após a agressão, o agressor pede perdão, chora, faz promessas, dá presentes e se declara, fazendo a mulher acreditar que ele vai mudar. Isso perpetua o ciclo, mas, logo após a fase de lua de mel, a tensão recomeça e o ciclo se repete, cada vez mais intenso”, assegurou.
A psicóloga ainda abordou os outros tipos de violência contra as mulheres. “Há a violência patrimonial, quando o homem destrói objetos da mulher, como rasgar o diploma dela ou esconder documentos para impedi-la de trabalhar. No caso da violência física, ela não se resume apenas a bater ou impedir a mulher de ir e vir, de trabalhar, de visitar a família ou de sair de casa, também constituem violência física. Já a violência moral busca difamar a mulher, fazendo com que ela seja o alvo de piadas em rodas de amigos, constrangendo-a publicamente. Isso é considerado crime, não é brincadeira”, revelou.
A profissional ressaltou que, apesar das campanhas de conscientização, como o “Agosto Lilás”, a violência persiste e os números de feminicídio são alarmantes, com 23 vítimas somente neste ano no Estado. “Quanto mais se empodera as mulheres e se incentiva a denúncia, mais alguns homens tentam se auto afirmar, escalonando a violência. Por isso, temos a necessidade de prevenção com homens, sendo necessárias campanhas voltadas para eles, idealmente começando nas escolas, para combater a masculinidade tóxica”, orientou.
O ProEVA, conforme a psicóloga, foi fundado em 2013 em Campo Grande, sendo o primeiro projeto completo de apoio às vítimas de abuso. “Nós trabalhamos com a conscientização, o tratamento das sequelas do abuso e a projeção da mulher para o mercado de trabalho, oferecendo ferramentas para que ela possa sair do ciclo”, explicou, revelando que já atendeu centenas de mulheres e famílias gratuitamente, libertando muitas pessoas, mas que hoje o projeto está temporariamente parado em busca de parcerias para retomar as atividades e formar novas turmas.
A respeito do questionamento de que os agressores podem mudar, Gisele Oliveira disse que é possível, entretanto, eles precisarão receber ajuda, mas nunca das vítimas. “O papel da vítima não é ajudar o agressor. Ele precisa de intervenção profissional, pois somente um profissional pode identificar se o homem é apenas tóxico (necessitando de psicoeducação) ou se possui psicopatologias, como narcisismo e psicopatia, que exigem tratamento longo e específico. A mulher não deve continuar no relacionamento enquanto o homem busca tratamento, ela precisa terminar a relação para sua própria segurança”, aconselhou.
Assista a entrevista completa pelo link:







