Campo Grande assiste, mais uma vez, à administração de Adriane Lopes dar voltas em torno do próprio buraco. Após meses de negação, a prefeita decidiu admitir o óbvio: a prefeitura está quebrada. O novo pacote de “ajuste fiscal” vem travestido de reforma administrativa, mas parece mais um remendo apressado em um barco que afunda e leva junto o contribuinte, o servidor e o orgulho de quem ainda acreditava na propaganda de “gestão eficiente”.
Em meio a uma crise sem precedentes, Adriane anunciou que a jornada dos servidores será reduzida para seis horas diárias, com a promessa de economizar gastos e “melhorar a eficiência”. Na prática, é a formalização do que já se tornou rotina: metade do expediente, metade do serviço, zero de resultado. As escolas, unidades de saúde e serviços essenciais escaparão da tesoura, ao menos por enquanto. Mas o recado está dado: a contenção é para todos, menos para os buracos, que continuam se multiplicando.
O gesto mais teatral ficou por conta do corte de 20% no próprio salário e no de todo o primeiro escalão. A prefeita tenta vender austeridade depois de ter autorizado, em abril, um reajuste de até 63% para o alto escalão, o mesmo grupo que agora finge solidariedade com a crise. Adriane, que elevou o próprio subsídio para R$ 26,9 mil, passará a receber R$ 21,5 mil por quatro meses. Uma renúncia heroica, se comparada ao servidor que amarga o terceiro ano sem reposição da inflação.
A vice-prefeita, Camilla Nascimento, também entra na encenação: o corte de 20% sobre o salário reajustado de R$ 22,3 mil fará com que ela receba cerca de R$ 17,8 mil, ainda assim 12% acima do que ganhava no início do ano. A “austeridade” da dupla é um exemplo de como é possível cortar ganhando mais.
Os secretários municipais seguem o mesmo roteiro. Em abril, o salário da turma do primeiro escalão saltou de R$ 11,6 mil para R$ 19 mil. Agora, com o “sacrifício” imposto pela prefeita, passarão a ganhar R$ 15,2 mil. O corte de 20% ainda deixa o reajuste líquido de 31% desde o início da gestão. Em Campo Grande, austeridade é quando o privilegiado ganha menos, mas continua ganhando muito.
A prefeita também determinou que cada secretaria apresente um plano para reduzir em 20% os custos com a folha de pagamento. Aparentemente, a ideia é equilibrar as contas demitindo quem já sobrevive de salário congelado. O funcionalismo, que desde 2023 não recebe sequer reposição inflacionária, agora se vê sob a ameaça do “a princípio” usado pela prefeita para dizer que o corte não será linear, por enquanto.
O discurso oficial fala em “eficiência” e “benefício à população”, mas o cenário nas ruas mostra outra coisa. Os buracos voltaram com força total, os remédios sumiram dos postos, o transporte coletivo enfrenta paralisações e a Santa Casa ameaça colapsar. Se essa é a eficiência prometida, Campo Grande está prestes a conquistar o título de capital da ironia administrativa.
Adriane Lopes tenta convencer que os cortes são “fundamentais para preservar empregos e manter salários em dia”. Mas há uma verdade incômoda: quem está em dia é o contracheque dela e do secretariado, enquanto o servidor que sustenta a máquina pública é quem paga o preço do desgoverno.
A prefeita, que um ano atrás se dizia vitoriosa por estar “colocando a casa em ordem”, agora tenta apagar incêndio com gasolina. A cidade, cansada de decretos, medidas e notas oficiais, quer respostas. Quer saúde funcionando, ruas transitáveis, escolas abertas e dignidade no serviço público.
No fim, Adriane Lopes corta o que ela mesma inflou e ainda chama isso de “ajuste”. É o retrato de uma gestão que brinca de austeridade, mas vive de contradição. Campo Grande não está em reforma, está em ruína. E a prefeita, ao invés de reconstruir, segue redecorando os escombros.







