Enquanto as luzes de Natal ainda brilham na Avenida Afonso Pena, a gestão da prefeita Adriane Lopes (PP) termina o ano mergulhada em uma escuridão administrativa e jurídica. O que deveria ser um período de consolidação política transformou-se em um “inferno astral” para o Paço Municipal, com a Capital sul-mato-grossense enfrentando desde intervenções no transporte até operações policiais contra corrupção.
1. O escândalo da iluminação (Cosip)
O fechamento de 2025 foi sacudido pela Operação “Apagar das Luzes”, deflagrada pelo Gecoc e Gaeco. A investigação revelou um esquema que faz o bolso do contribuinte arder: Campo Grande detém a taxa de iluminação pública (COSIP) mais cara do Brasil, arrecadando quase R$ 200 milhões por ano, enquanto contratos de LED são alvo de suspeitas de superfaturamento superiores a R$ 110 milhões.
As empresas Construtora B&C, JLC Ltda e M.R Construtora estão no centro do furacão, com indícios de direcionamento de licitações e uso de empresas de fachada. Mesmo com a apreensão de documentos na Secretaria de Infraestrutura (Sisep), a gestão resiste em afastar servidores investigados, alimentando críticas sobre a proteção a aliados.
2. Transporte: o golpe de misericórdia na popularidade
O Natal dos campo-grandenses foi amargo. A paralisação total dos motoristas de ônibus em dezembro não foi apenas uma greve; foi o símbolo da falência de um modelo de gestão.
- Prejuízo Econômico: O comércio local amargou perdas de R$ 40 milhões durante os dias de paralisação.
- Rejeição Recorde: Pesquisas do Instituto Ranking indicam que 87% da população desaprova a gestão, com 56% dos usuários responsabilizando diretamente a prefeita pelo caos no transporte.
- Tarifa “Explosiva”: A pressão judicial para elevar a tarifa técnica para R$ 7,79 paira como uma ameaça ao orçamento das famílias para 2026.
3. A “Folha Secreta” e o abismo na Saúde
A oposição na Câmara Municipal não dá trégua. As denúncias de uma “Folha Secreta” — pagamentos extras sem transparência a servidores selecionados — ganharam corpo no Ministério Público. O contraste é cruel: enquanto sobram gratificações no gabinete, faltam luvas e medicamentos básicos nas UPAs.
O Conselho Regional de Medicina (CRM) classificou a situação como “colapso total”. Com um rombo estimado em R$ 150 milhões no Fundo Municipal de Saúde, a prefeita enfrenta agora a sombra da “CPI da Saúde”, que promete investigar se recursos carimbados foram desviados para o pagamento de pessoal.
4. Cultura e Sociedade
Campo Grande tornou-se um “pária cultural” no Centro-Oeste em 2025. Única capital inabilitada para a Lei Aldir Blanc (PNAB), a cidade perdeu R$ 23 milhões por pura falha na execução de recursos anteriores. O cenário de autoritarismo foi reforçado em novembro, quando a repressão truculenta da Guarda Municipal contra mães atípicas e motoentregadores no evento “Natal dos Sonhos” chocou o país.
O que esperar de 2026?
Adriane Lopes sobreviveu, em maio de 2025, a um processo de cassação no TRE-MS por 5 votos a 2. Juridicamente, ela respira. Politicamente, está isolada. A tentativa de aprovar um teto de gastos municipal “a toque de caixa” na Câmara é vista por especialistas como um remédio amargo aplicado por quem deixou a doença se espalhar.
A prefeita encerra o ano tentando equilibrar as contas, mas a pergunta que ecoa nas sete regiões da cidade é: o que está ruim, pode piorar?
Por Antonio Ueno – Cientista Político






