Com as constelações CTC-1 e CTC-2, Pequim planeja ocupar o espaço com quatro vezes mais satélites que a Starlink, levantando debates sobre soberania e viabilidade técnica.
A corrida pela ocupação da órbita terrestre baixa (LEO) acaba de ganhar um novo e ambicioso capítulo. A China submeteu à União Internacional de Telecomunicações (UIT), órgão vinculado à ONU, pedidos para o lançamento de quase 200 mil satélites. A iniciativa, protocolada no final de dezembro, pode redesenhar o equilíbrio de poder espacial e superar amplamente os planos da SpaceX de Elon Musk.
Os Projetos CTC-1 e CTC-2
O plano chinês divide-se em duas constelações massivas:
- Total de satélites: 193.428 (96.714 por constelação).
- Infraestrutura: Distribuídos em 3.660 órbitas distintas.
- Comparativo: O volume é quase quatro vezes superior ao plano de 49 mil satélites da Starlink, atualmente a maior rede do mundo.
Defesa e “Apropriação Territorial”
Embora Pequim não tenha detalhado oficialmente a finalidade comercial das redes, especialistas da Universidade de Aeronáutica de Nanjing apontam para funções de segurança eletromagnética, sistemas de defesa integrados e supervisão de baixa altitude. O perfil assemelha-se ao Starshield, o braço militar da SpaceX utilizado pelos EUA.
Analistas alertam para uma estratégia de “apropriação de território orbital”. Pelas regras da UIT, ao protocolar o pedido, a China força outros operadores a provar que seus futuros projetos não causarão interferência, criando uma barreira de entrada para concorrentes internacionais.
“É possível que estejam apenas tentando garantir um espaço para uso futuro”, afirma Victoria Samson, da Secure World Foundation, sugerindo que o movimento pode ser mais preventivo do que operacional.
O Desafio da Realidade: 500 lançamentos por semana?
Apesar da escala monumental no papel, a viabilidade logística do projeto é questionada. Para cumprir os prazos da UIT (que exige a conclusão da constelação em até 14 anos), a China precisaria realizar cerca de 500 lançamentos por semana.
Para efeito de comparação:
- Recorde chinês (2025): 92 lançamentos no ano.
- Capacidade produtiva: O setor comercial e estatal chinês produz, somados, menos de mil satélites por ano — longe dos milhares necessários para o projeto CTC.
Contexto Geopolítico
O movimento ocorre em um momento de tensão máxima. Enquanto a China critica a SpaceX na ONU por “poluir” o espaço com satélites comerciais, Pequim acelera seu próprio crescimento: o país saltou de 40 satélites em 2010 para cerca de mil em órbita atualmente.
Para o governo de Xi Jinping, o espaço é um “ativo vital”. A disputa pela órbita baixa é hoje tão estratégica quanto a corrida lunar, funcionando como a “espinha dorsal” para comunicações e vigilância em conflitos modernos, como observado na guerra da Ucrânia.






