O cenário político para as eleições de 2026 em Campo Grande desenha-se sob uma tensão inédita. Enquanto mais da metade dos vereadores da Câmara Municipal já se movimenta como pré-candidatos à Assembleia Legislativa (ALEMS) e à Câmara Federal, a Capital mergulha em uma crise de zeladoria e gestão que coloca em xeque a capacidade de convencimento desses parlamentares junto ao eleitorado.
Especialistas são enfáticos ao analisar o momento: “Como os pré-candidatos vão pedir votos com tantos problemas não resolvidos? A população está saturada”. Para analistas, a conta eleitoral não fecha quando o discurso esbarra na realidade das ruas esburacadas e no caos administrativo.
O abismo da realidade
Embora a função essencial do vereador seja legislar, fiscalizar o Executivo e representar os interesses da população, o que se vê na prática é uma percepção diferente. Além de monitorar o orçamento municipal e garantir a transparência, cabe ao parlamentar ser o primeiro filtro contra abusos da prefeitura.
Escândalos e Falta de Transparência
A lista de obstáculos para quem busca a ascensão política envolve cifras milionárias sob investigação:
- Iluminação Pública (COSIP): O Gaeco e o MPE investigam desvios que podem ultrapassar R$ 110 milhões em contratos de manutenção. O dinheiro, pago mensalmente pelo cidadão na conta de luz, é alvo de suspeitas de superfaturamento.
- Saúde em Colapso: O destino de R$ 156 milhões do Fundo Municipal de Saúde está sob questionamento. Denúncias apontam que a prefeita Adriane Lopes teria movimentado os valores sem autorização legal, enquanto postos sofrem com falta de insumos e hospitais operam superlotados.
- Transporte Coletivo: Sob intervenção judicial desde o início de 2026, o Consórcio Guaicurus enfrenta seu pior momento, com frota sucateada e indícios de má gestão.
- Zeladoria Urbana: O cenário de abandono é visível: crateras no asfalto, obras paradas e mato alto tomam conta dos bairros.
O IPTU e a Taxa de Lixo
Se os escândalos financeiros pareciam distantes, o carnê do IPTU 2026 trouxe a crise para o bolso do contribuinte. Com reajustes que chegaram a 396% em casos extremos, a revolta foi generalizada. O aumento resultou da combinação de quatro fatores: corte no desconto à vista (de 20% para 10%), reclassificação de imóveis, elevação na taxa de lixo e atualização cadastral.
A reação da Câmara, em janeiro, foi vista como tardia. O vereador Landmark (PT) lamentou que seu projeto de dezembro para manter o desconto de 20% tenha sido ignorado. Agora, Rafael Tavares (PL), que preside a comissão de avaliação de impactos, tenta derrubar o veto da prefeitura para mitigar os valores.
O Cenário de 2026
Pré-candidatos à ALEMS:
- Marquinhos Trad (PDT), Luiza Ribeiro (PT), Rafael Tavares (PL), Victor Rocha (PSDB), Silvio Pitu (PSDB), Maicon Nogueira (PP), André Salineiro (PL), Ana Portela (PL), Flavio Cabo Almi (PSDB), Veterinário Francisco (União Brasil), Junior Coringa (MDB) e Landmark (PT).
Pré-candidatos à Câmara Federal:
- Professor Juari (PSDB), Herculano Borges (Republicanos), Dr. Jamal Salém (MDB), Wilson Lands (Avante) e Neto Santos (Republicanos).
Gastos do Legislativo sob lupa
Em contraste com a carência de investimentos no município, o custo da estrutura legislativa permanece elevado. Com base no repasse do duodécimo — equivalente a 4,5% da receita — a prefeita Adriane Lopes destinou à Câmara Municipal em torno de R$ 200 milhões no exercício de 2025.
No campo das verbas indenizatórias, o gasto somou R$ 7,763 milhões em apenas 11 meses do ano passado. Os recordistas de gastos foram Dr. Victor Rocha (PP) e Veterinário Francisco (União Brasil), que utilizaram o teto máximo de R$ 25 mil mensais. Na contramão, Clodoilson Pires (Podemos) foi o mais econômico. Vale destacar que o valor das verbas só não foi maior devido a uma ação popular movida pelo advogado Sérgio Salles Júnior, que conseguiu barrar judicialmente o aumento do teto de R$ 25 mil para R$ 30 mil.
O desafio das urnas
A estratégia de “apagar o fogo” com sessões extraordinárias parece insuficiente para convencer o eleitor que terá até 12 de fevereiro para pagar um imposto inflacionado. Com a Câmara vista como “enfraquecida”, o desafio dos vereadores em 2026 será explicar por que os problemas básicos de Campo Grande — do asfalto ao posto de saúde — continuam sem solução.






