A polarização deixou de ser um conceito restrito aos livros de ciência política para se tornar o filtro pelo qual o brasileiro enxerga o mundo. Mais do que uma simples escolha partidária, a dicotomia entre “direita” e “esquerda” reflete um embate histórico entre dois valores fundamentais da modernidade: a liberdade individual e a igualdade social.
Como tudo começou
Curiosamente, essa divisão nasceu de um detalhe de logística parlamentar durante a Revolução Francesa. Na Assembleia Nacional de 1789, a posição das cadeiras definiu o vocabulário político global:
- À Direita: Sentavam-se os girondinos e defensores da Coroa, que buscavam preservar as tradições e a ordem vigente (status quo).
- À Esquerda: Posicionavam-se os jacobinos, revolucionários que exigiam mudanças profundas, o fim dos privilégios da nobreza e o poder nas mãos do povo.
O Embate de Visões: O que os lados defendem?
Para o filósofo Norberto Bobbio, o divisor de águas é a igualdade. Enquanto a esquerda acredita que o Estado deve intervir para reduzir as disparidades sociais, a direita tende a ver as desigualdades como naturais ou resultantes do mérito individual, priorizando a liberdade econômica e a autonomia do cidadão.
Mato Grosso do Sul
No cenário nacional, o embate é personificado pelo “Lulismo” versus “Bolsonarismo”. Em Mato Grosso do Sul, essa dinâmica ganha cores locais: o estado possui uma identidade profundamente ligada ao agronegócio, o que solidifica uma hegemonia de direita e centro-direita.
A resiliência da Direita
O campo conservador sul-mato-grossense mantém-se altamente mobilizado, tendo a figura de Jair Bolsonaro como principal catalisador. Lideranças como o deputado estadual João Henrique Catan (PL) e o ex-deputado Capitão Contar (PL) atuam como vozes críticas ao Judiciário e defensores das pautas de costumes e liberdade econômica.
O domínio nas urnas é visível em dois pilares:
- A Capital: A reeleição de Adriane Lopes (PP) em Campo Grande, com forte apoio da base bolsonarista, e vem fazendo uma péssima administração.
- Capilaridade: O PSDB detém a maioria das prefeituras, seguido pelo fortalecimento do PP — sob a liderança da senadora Tereza Cristina e do governador Eduardo Riedel — e pelo crescimento orgânico do PL.
Esquerda mantém postos chave
Engana-se quem pensa que a esquerda é ausente no estado. Embora em menor número de prefeituras, o bloco mantém atuação estratégica e foco em pautas sociais e infraestrutura.
- Articulação Federal: O deputado Vander Loubet (PT) é o elo com o Governo Federal, focando em agricultura familiar. Ao seu lado, Camila Jara (PT) representa a renovação, trazendo para o debate a segurança alimentar e os direitos das mulheres.
- Voz Legislativa: Na Assembleia, Pedro Kemp (PT) segue como o principal porta-voz da educação pública e dos servidores.
Os números do equilíbrio
Apesar da hegemonia da direita, os dados eleitorais mostram uma base sólida da esquerda. No pleito presidencial de 2022 em MS, Lula obteve 39,04% dos votos no primeiro turno e subiu para 40,51% no segundo turno, demonstrando que quatro em cada dez Sul-mato-grossenses se alinham ao projeto progressista.
Além dos Polos
Enquanto intelectuais como Anthony Giddens sugerem uma “Terceira Via” — que busca conciliar a eficiência do mercado com o bem-estar social —, o eleitorado, tanto local quanto nacional, ainda parece movido pela paixão dos polos.
Mato Grosso do Sul segue seu caminho definindo o destino entre a preservação das tradições e a urgência por avanços sociais.





