A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), decidiu subir o tom — e o investimento — em sua defesa jurídica. Diante da iminência de um julgamento decisivo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a mandatária contratou o escritório de Maria Cláudia Bucchianeri Pinheiro, ex-ministra da Corte, conhecida por atuar em causas de altíssima relevância e cifras milionárias.
O movimento é visto como uma tentativa desesperada de evitar a cassação. O histórico da advogada impressiona: em 2024, ela foi contratada pela CBF por R$ 10 milhões para defender seu então presidente. Agora, terá a missão de manter Adriane e sua vice, Camilla Nascimento de Oliveira, nos cargos, apesar das evidências de “captação ilícita de sufrágio” (compra de votos) que mancharam as eleições de 2024.
O crime existiu, mas a “punição” ficou pelo caminho
O processo chega a Brasília após uma decisão controversa no Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS). Por 5 votos a 2, o pedido de cassação foi rejeitado, mas o acórdão traz uma contradição que serve de munição para o Ministério Público.
A maioria dos juízes, no entanto, utilizou uma brecha técnica para salvar a prefeita: alegaram que não houve “prova cabal” de que Adriane deu a ordem direta para a compra, embora ela tenha sido a beneficiária direta da ilegalidade.
“A interpretação de exigir prova do envolvimento direto afronta a inteligência decisória… ilícitos desta natureza são praticados com o completo afastamento do candidato dos atos executórios”, alertou o procurador regional eleitoral Luiz Gustavo Mantovani.
PIX de assessora e dinheiro
O Ministério Público Eleitoral (MPE) insiste que a ligação entre a prefeita e o esquema é inegável. Entre os pontos principais do recurso estão:
- Rastro Bancário: Comprovantes de PIX feitos por Simone Bastos Vieira (assessora de gabinete de Adriane) para testemunhas que confessaram a compra de votos.
- Logística Oficial: O uso de Rodrigo Hata, motorista oficial do gabinete da Prefeitura, na operacionalização do esquema.
- Cenas de Filme: Depoimentos relatam que pagamentos por adesivagem de veículos eram feitos em dinheiro vivo, “jogado pela janela do carro” em bairros da periferia.
- A promessa da presença: Testemunhas afirmaram que as reuniões de pagamento contavam com a promessa de que a própria Adriane compareceria.
“Manual para comprar votos”
Para o procurador Mantovani, a decisão do TRE-MS, se mantida, funciona como uma “dica” para criminosos eleitorais: basta delegar o crime a subordinados diretos para ficar impune. Ele classifica a tese de “falta de ciência” das candidatas como algo que “beira a ingenuidade”, questionando quem mais teria interesse em gastar fortunas para comprar votos senão a própria beneficiária.
A decisão final foi de 5 votos a 2 contra a cassação. O ponto central da divergência entre os magistrados não foi necessariamente a inexistência de irregularidades, mas sim a responsabilidade direta da prefeita nelas.
O desfecho em Brasília
Com a contratação de Maria Cláudia Bucchianeri, a defesa aposta no peso político e técnico da ex-ministra para convencer o TSE de que a vontade popular das urnas deve prevalecer sobre as irregularidades apontadas.
Por outro lado, o PDT e o Democracia Cristã, autores da denúncia, esperam que a Corte Superior siga precedentes rigorosos — como o caso de um senador do Amapá cassado pela compra de apenas dois votos. Em Campo Grande, o esquema envolveria centenas de veículos e uma estrutura profissionalizada de corrupção eleitoral.
O julgamento no TSE ainda não tem data marcada, mas a movimentação nos bastidores jurídicos indica que a prefeita sabe que o risco de perder a cadeira nunca foi tão alto.






