Flávio Dino, Justo Veríssimo e os “Penduricalhos”

Reprodução IA

Na década de 1980, o Brasil ria — com um nó na garganta — de Justo Veríssimo. O personagem de Chico Anysio, com seu bigode aristocrático e o icônico bordão “quero que pobre se exploda”, era a personificação do escárnio político. Veríssimo não escondia o jogo: odiava o povo, amava o erário e operava em um universo onde a ética era um estorvo.

Quarenta anos depois, a ficção de Chico parece ter sido promovida a manual de gestão pública. A recente explosão dos chamados “penduricalhos” no Judiciário e no Ministério Público, revela que o “Ministério da Corrupção” de Veríssimo saiu das telas para se instalar nos contracheques da elite do funcionalismo.

Realidade

Enquanto o trabalhador médio sul-mato-grossense sobrevive com R$ 3,4 mil mensais, uma casta de 232 membros do Ministério Público estadual (MPMS) flutua em uma realidade paralela. Em 2025, o órgão gastou surreais R$ 153 milhões apenas em reembolsos e auxílios.

O termo “penduricalho” é um eufemismo gentil para uma engenharia financeira perversa. São auxílios-saúde de quase R$ 6 mil — valor que sozinho supera o salário de dois trabalhadores — e gratificações que catapultaram rendimentos para além dos R$ 300 mil em um único mês. Tudo isso sob o manto das “verbas indenizatórias”, um drible jurídico criado para ignorar o teto constitucional de R$ 46,3 mil. Tudo certinho no Portal da Transparência.

O Choque do STF

O castelo de cartas começou a balançar em fevereiro de 2026. As decisões dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes colocaram o dedo na ferida purulenta do sistema. Dino foi cirúrgico ao afirmar que esse rol de indenizações não possui precedentes nem nos países mais ricos do planeta.

A suspensão determinada pelo STF não é apenas uma medida fiscal; é um choque de moralidade. Ao estabelecer prazos de 45 a 60 dias para que tribunais e MPs interrompam pagamentos baseados em leis estaduais ou atos administrativos, a Suprema Corte tenta restabelecer uma verdade básica: ninguém, nem mesmo quem fiscaliza a lei, pode estar acima dela.

O legado de Chico Anysio

Justo Veríssimo dizia ser um “homem de bens”. No Brasil de 2026, os “homens de bens” do serviço público transformaram o orçamento em um banquete particular. A comparação com a sátira de Chico Anysio não é mera coincidência; é o reconhecimento de que a estrutura de privilégios brasileira é resiliente e se adapta, trocando a corrupção de maleta pela corrupção de holerite.

Chico Anysio conseguia fazer a gente rir de coisas que deveriam nos fazer chorar. Ele usava o exagero para revelar a essência. Quando Justo Veríssimo aparecia, ele não estava apenas fazendo piada; ele estava colocando um espelho na frente de todos nós.

Se o STF mantiver as liminares no julgamento deste dia 25, talvez o Brasil dê o primeiro passo para fechar, definitivamente, as portas do “Ministério da Corrupção”. Caso contrário, continuaremos a ser o país onde a lei não serve para fazer justiça, mas para legalizar o abismo entre quem paga o imposto e quem devora o tesouro.

Frases e bordões marcantes de Justo Veríssimo:

“Eu quero que pobre se exploda!”

“Tenho horror a pobre.”

“Quanto mais pobre, mais eu quero que se exploda!”

“O pobre é uma coisa que não deveria existir.” (Adaptado)

“Eu, como todo homem público, sou… sinceramente hipócrita.”

“Fazer o que? Pobre só sabe fazer fila e filho.”

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