O feminicídio – assassinato de mulheres só por serem mulheres – não é um evento isolado nem um ato súbito de violência. Trata-se do desfecho extremo de uma longa construção social, cultural e histórica, marcada por relações de poder desiguais entre homens e mulheres. Antes do crime, há um percurso silencioso: o da naturalização da dominação, da submissão e do controle.
Ao longo dos séculos, diferentes estruturas sociais contribuíram para consolidar essa lógica. Em muitas sociedades ocidentais, a organização patriarcal estabeleceu o homem como figura de autoridade – na família, na política e na religião. A mulher, por sua vez, foi frequentemente associada à obediência, ao cuidado e à manutenção da ordem doméstica.
Muitos fatores contribuíram para a construção da sociedade patriarcal, e o maior deles é o religioso. A influência religiosa, sobretudo em períodos históricos mais conservadores, reforçou esse modelo. A ideia da mulher virtuosa como aquela que suporta, perdoa e se sacrifica foi repetida por gerações, inclusive em livros sagrados, como a Bíblia. Em muitos contextos, o sofrimento feminino foi romantizado ou tratado como sinal de valor moral. Ao mesmo tempo, aos homens foi negado o aprendizado da vulnerabilidade emocional, criando um padrão de comportamento baseado na força, no controle e na repressão de seus mais profundos sentimentos.
Esse modelo cultural atravessou o tempo e encontrou novas formas de expressão. Na contemporaneidade, discursos que associam masculinidade à dominação e feminilidade à submissão continuam sendo reproduzidos — seja em ambientes familiares, religiosos, políticos ou, mais recentemente, em plataformas digitais. Podcasts, influenciadores e conteúdos viralizados muitas vezes reforçam narrativas que colocam a autonomia feminina como ameaça.
A partir daí, o ciclo da violência se estabelece de forma progressiva. Ele começa com o controle, como comentários sobre roupas, exigências de comportamento, vigilância constante. Em seguida, surgem o isolamento social, a manipulação emocional, a culpa e a humilhação. A violência física, quando aparece, geralmente já é o estágio avançado de um processo que vinha sendo construído.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que a maioria dos feminicídios ocorre dentro de relações afetivas. O agressor, na maior parte dos casos, é parceiro ou ex-parceiro da vítima. Isso evidencia que o perigo não está apenas nas ruas, mas dentro de casa — no espaço que deveria ser de proteção.
Outro ponto crítico ocorre no momento da ruptura. Quando a mulher decide encerrar a relação, o risco aumenta significativamente. Para homens que foram socializados na lógica da posse, o término não é visto como uma decisão legítima, mas como uma afronta. É nesse contexto que muitos crimes são cometidos.
Embora avanços legais tenham sido conquistados – como a tipificação do feminicídio no Brasil em 2015 e a Lei Maria da Penha – o enfrentamento do problema ainda esbarra em questões culturais profundas. Leis punem, mas não transformam sozinhas mentalidades construídas ao longo de gerações.
Especialistas apontam que o combate ao feminicídio exige ações integradas: educação para igualdade de gênero desde a infância, políticas públicas eficazes de proteção às vítimas, responsabilização dos agressores e revisão crítica dos discursos que legitimam a violência.
Mais do que reagir ao crime consumado, o desafio está em reconhecer seus sinais iniciais. O feminicídio não começa no momento do assassinato. Ele se inicia muito antes, na forma como a sociedade ensina homens e mulheres a se enxergarem e a se relacionarem.
Escrevo este texto não de forma técnica, cumprindo a função de jornalista. Mas, com o coração sangrando, preocupado com o desafio que têm pela frente minhas filhas – Isabela e Alice -, e convicto que assim posso minimamente contribuir na construção de um mundo menos hostil para minhas meninas.
Portanto, enunciar essas estruturas, questionar narrativas e promover novas formas de convivência são passos fundamentais para interromper esse ciclo. Porque, antes de se tornar estatística, o feminicídio é, sobretudo, uma construção social que pode — e precisa — ser desconstruída.






