Agradar é uma arte ingrata, especialmente na política. Mas essa parece ser a sina que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu carregar. Diante do cenário atual, lembro-me de uma máxima que meu pai sempre repetia: “Quem gosta de você é sua família, eu e sua mãe. Lembre-se sempre disso!”. No realismo do poder, o amor não entra na planilha de custos, mas o reconhecimento, por pura fidalguia, deveria constar no balanço. Em Mato Grosso do Sul, contudo, a contabilidade da gratidão fechou em déficit.
Nosso estado representa míseros 1,28% do eleitorado nacional e deu a Lula 40,51% dos votos válidos no segundo turno de 2022. Para estrategistas frios, o MS seria colocado em segundo plano. Mas o governo federal preferiu o republicanismo à vingança matemática: despejou R$ 24,1 bilhões via Novo PAC, R$ 21,6 bilhões em transferências diretas e avalizou US$ 250 milhões junto ao Banco Mundial para o programa Rodar MS. O resultado? Um silêncio ensurdecedor da ala que mais se beneficia dessa engrenagem: o agronegócio e seus representantes políticos.
O ápice dessa comédia dramática ocorreu em Três Lagoas, na retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III). O projeto, que passou uma década apodrecendo ao sol como símbolo da inércia nacional, finalmente sairá do papel com um investimento superior a R$ 5 bilhões da Petrobras. Quando atingir o pico, produzirá 1,3 milhão de toneladas de ureia por ano. Como o Centro-Oeste responde por 40% da demanda nacional, produzir o insumo aqui reduz drasticamente o custo logístico e a nossa vulnerabilidade externa. É, literalmente, a salvação da lavoura.
E quem estava lá para aplaudir? A bancada conservadora, que costuma orbitar feiras agropecuárias em busca de votos, sumiu do mapa. O governador Eduardo Riedel justificou sua ausência para comparecer ao sepultamento da ex-deputada Grazielle Machado — um gesto legítimo e respeitoso. No entanto, o restante da direita local preferiu o boicote visual. O palanque ficou restrito aos aliados de sempre.
Lula sentiu o golpe e foi duro ao tocar na ferida: “Tem muita gente do agronegócio que nunca se preocupou que a gente tivesse uma fábrica de fertilizante aqui, porque era muito barato importar (…) O pobre brasileiro paga o preço dessa guerra aqui por irresponsabilidade de muita gente”. A elite econômica prefere o alinhamento ideológico cego a reconhecer que o maior Plano Safra da história (R$ 516,2 bilhões) veio justamente de quem eles rejeitam. É a política da cegueira seletiva: o dinheiro federal é embolsado, mas a mão que o estende é ignorada.
Enquanto o Agro vira as costas, a alegria e a esperança brotam na outra ponta da pirâmide. Em Ponta Porã, no assentamento Itamarati, o cenário foi o oposto. Ali, o calor humano sobrou: foram 1.390 títulos de terra entregues, a garantia da Fazenda Che Cay para 147 famílias quilombolas e R$ 20 milhões para cooperativas locais.
Não há espaço para mágoas no tabuleiro do poder. O pragmatismo econômico dita que a UFN-III vai baratear o custo de produção. A infraestrutura na BR-267 (Rota Bioceânica), os aeroportos modernos e as moradias vão continuar avançando. Vida que segue!
Por Antonio Ueno, Cientista Político






