Por Rogério Alexandre Zanetti
A Copa do Mundo sempre foi muito mais do que futebol. É um palco onde cada seleção leva para o gramado sua história, sua cultura, seus símbolos e, muitas vezes, a forma como enxerga o mundo. A Copa do Mundo de futebol é o último refúgio de lutas justas entre nações, já que as guerras são e sempre foram deploráveis. Em copas do mundo, com a eliminação do Brasil – algo comum nos últimos tempos -, e sem a Itália de meus ancestrais – igualmente comum -, escolho sempre um time sul-americano para vibrar e torcer.
No entanto, na edição de 2026, minha torcida terá um destino diferente daquele de quatro anos atrás. Na final de 2022, como milhões de apaixonados pelo esporte, torci pela Argentina. Era difícil não admirar a trajetória de Lionel Messi, um dos maiores jogadores de todos os tempos, finalmente alcançando o único título que faltava em sua carreira. Aquela conquista parecia coroar uma história construída com talento, perseverança e genialidade.
Mas o futebol, às vezes, produz sentimentos que vão muito além dos 90 minutos.
Quando a festa perde o brilho
Nos anos seguintes à conquista mundial, episódios envolvendo cantos racistas entoados por parte da torcida argentina — e que também repercutiram envolvendo integrantes da seleção brasileira após a Copa América — provocaram uma profunda reflexão.
Naturalmente, seria injusto responsabilizar um povo inteiro ou todos os torcedores argentinos pelo comportamento de alguns. A Argentina possui milhões de cidadãos que rejeitam qualquer forma de preconceito e compartilham dos mesmos valores universais de respeito e convivência.
Ainda assim, imagens e manifestações que ganharam repercussão internacional deixaram uma marca difícil de ignorar. Em um momento em que o esporte deveria aproximar pessoas, discursos discriminatórios caminham exatamente na direção oposta.
Paralelo a isso, a seleção da França vem sendo vítima de ataques sistemáticos não apenas de torcidas rivais, mas de políticos – sim, de políticos -, de outras nações, incomodados com o fato de o bonito futebol do selecionado francês ser fruto de um time com rapazes cujas origens remetem, olha só, a antigas colônias francesas, como Argélia e Camarões, entre outros.
A beleza da seleção francesa de futebol reside no fato de ser um verdadeiro caldeirão de etnias e culturas. A grande maioria dos jogadores é de origem imigrante ou afrodescendente, representando a história colonial da França na África e no Caribe. Eles são filhos e netos de pessoas que migraram para o país.
Nesse incrível time de futebol que às vezes parece jogar por música, se destacam atletas de origens como africana subssarianos, com raízes em países como Mali, Senegal, Camarões, Mauritânia e República Democrática do Congo. Também tem homens com origens norte-africana; ou seja, árabe; com forte representação de ascendência argelina, como o astro Kylian Mbappé, além de marroquinos e tunisianos. Destacam-se também caribenhos e sul-americanos, com diversos jogadores com raízes em territórios ultramarinos e ilhas caribenhas francesas, como Guadalupe e Martinica, além da Guiana Francesa. E, claro, ainda têm representante tipicamente europeus, com atletas que também possuem herança europeia, com forte presença de raízes espanholas e portuguesas, além de origens italianas.
O mais incrível desse caldeirão cultural-étnico que joga muita bola é que, apesar das múltiplas origens familiares ou locais de nascimento, os atletas possuem nacionalidade francesa, por terem nascidos e crescidos e se formaram no sistema de futebol do país e representam a nação nas competições.
É a França que representa o mundo
Se a Argentina passou a despertar em mim um sentimento de distanciamento, a França passou a representar justamente aquilo que considero um dos maiores patrimônios do futebol moderno.
Poucas seleções simbolizam tão claramente a diversidade humana.
Seu elenco reúne atletas com origens africanas, europeias, caribenhas e árabes. Filhos e netos de imigrantes dividem o mesmo uniforme, a mesma bandeira e o mesmo objetivo. Cada jogador leva consigo uma história familiar diferente, mas todos demonstram que a identidade nacional pode ser construída também pela inclusão.
É um retrato da sociedade contemporânea.
Não se trata apenas de vencer partidas. Trata-se de mostrar que pessoas de diferentes etnias, religiões, culturas e origens podem trabalhar juntas, competir juntas e conquistar juntas. E sob uma mesma bandeira e ideias, fazendo do que supostamente os separa ponto de união, conquista e vitória.
Muito além da cor da camisa
A beleza do esporte está justamente na liberdade de escolher nossos ídolos e nossas paixões. E a Liberdade, esse bem tão precioso e essencial à humanidade, é simbolizada na bandeira da França, na cor azul, ao lado da Igualdade, na cor branca, e na Fraternidade, a vermelha. Isso tem importância tão fundamental que inspira o Artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que conceitua: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.
Minha “nova” torcida não significa rejeitar o talento de Lionel Messi, cuja carreira continua merecendo respeito e admiração. Tampouco representa hostilidade ao povo argentino ou ao futebol daquele país, que tantas páginas gloriosas escreveu na história das Copas do Mundo.
Ela representa, acima de tudo, uma escolha de valores.
Identifico-me mais com uma seleção que simboliza a convivência entre diferenças do que com qualquer narrativa que possa ser associada à intolerância.
Futebol também comunica valores
Há quem diga que política, sociedade e futebol não se misturam. Na prática, porém, isso nunca aconteceu. As seleções nacionais carregam bandeiras, identidades, histórias e mensagens que ultrapassam o esporte. Cada Copa do Mundo também é um enorme encontro entre culturas.
Por isso, em 2026, minha torcida é pela França.
Não apenas pelos seus craques ou pela qualidade de seu futebol, mas porque vejo naquela camisa azul uma representação poderosa daquilo que considero essencial para o século XXI: respeito às diferenças, convivência entre culturas e a certeza de que a diversidade não enfraquece uma nação — ela a torna mais rica.
Quando a bola começar a rolar, continuarei apaixonado pelo futebol. Mas, desta vez, estarei torcendo também por uma ideia: a de que o esporte é mais bonito quando todos têm lugar no mesmo time.
E como diz o verso inicial de La Marselhesa, o belo Hino Nacional Francês: “Avante, filhos da Pátria, o dia da Glória chegou”.




