Entrevista com Gleycielli Nonato Guató, no Jornal da Top

Rede Top FM

A 1ª edição do programa Jornal da Top, da Rede Top FM, que em Campo Grande pode ser sintonizada na 88,9 FM, iniciou a semana, nesta segunda-feira (13), entrevistando Gleycielli Nonato Guató, pré-candidata a deputada federal por Mato Grosso do Sul e representante dos povos originários, que destacou a sua campanha como um movimento de “reexistência”.

Ela afirmou que sua pré-candidatura nasce da necessidade de ampliar a participação dos povos originários nos espaços de decisão política em Mato Grosso do Sul. “Com o lema ‘Nunca mais Mato Grosso do Sul sem nós’, defendo que as políticas públicas voltadas às comunidades indígenas sejam construídas com a participação direta de seus representantes”, declarou.

Segundo Gleycielli Guató, apesar de a cultura indígena ser frequentemente valorizada em discursos e manifestações culturais, os povos originários ainda permanecem distantes dos locais onde as decisões são tomadas. “É preciso que os indígenas estejam nas mesas de decisão para definir o próprio futuro. Durante muito tempo decidiram por nós, agora queremos participar da construção das políticas que afetam nossas vidas”, afirmou.

A pré-candidata a deputada federal destacou ainda que Mato Grosso do Sul tem a terceira maior população indígena do país, mas muitas comunidades ainda enfrentam dificuldades de acesso a direitos básicos, como água potável, educação e infraestrutura. Outro eixo da pré-campanha é o fortalecimento da participação feminina na política, pois, conforme ela, existe uma visão equivocada de que todos os povos indígenas possuem a mesma organização social, quando, na realidade, cada etnia possui características próprias.

Na cultura Guató, por exemplo, ela afirma que as mulheres exercem papel central na liderança familiar e comunitária, sendo conhecidas como “Mapago”, termo associado à onça-pintada e à força feminina. Já em outros povos, como os Terena, os cargos tradicionais de cacique historicamente foram ocupados por homens.

Mesmo assim, ela observa um crescimento da presença feminina nas lideranças indígenas, citando exemplos como as cacicas Lucinda, da Aldeia Água Bonita, Suzy Guarani e Mirian Terena. “As mulheres indígenas estão liderando tanto nas aldeias quanto nas cidades. Nossa participação cresce em todos os espaços”, ressaltou.

Gleycielli Guató definiu sua proposta política como ampla e baseada em sua própria trajetória. “Como mulher, mãe, professora, indígena Guató, moradora de Coxim, ribeirinha e mãe de uma filha LGBT, eu reúno experiências que dialogam com diferentes segmentos da sociedade”, ressaltou.

Entre as principais bandeiras estão o combate à invisibilidade dos povos originários, a defesa da dignidade das comunidades indígenas, o fortalecimento da autonomia política e a garantia de direitos básicos. “Problemas como a ausência de escolas e de abastecimento de água representam a negação da dignidade e comprometem o futuro das comunidades tradicionais”, argumentou.

Durante a entrevista, Gleycielli Guató também defendeu que não existe separação entre ser indígena e ser sul-mato-grossense. “Os povos originários constituem a base histórica do território muito antes da criação do Estado ou de acontecimentos como a Guerra do Paraguai. Como exemplo dessa identidade está o Movimento Guaikuru, surgido em Coxim, que reforça a valorização da cultura indígena em Mato Grosso do Sul”, citou.

Na área da educação, a pré-candidata propõe fortalecer o ensino indígena por meio da criação de universidades específicas para os povos originários e da ampliação das escolas bilíngues nas aldeias. “Crianças indígenas têm de estudar em suas comunidades, aprendendo tanto a língua materna quanto o português, sem precisarem abandonar sua cultura para ter acesso à educação”, assegurou.

Outra proposta é ampliar a aplicação da legislação que determina o ensino da história e da cultura indígena e afro-brasileira nas escolas. Para isso, considera essencial investir na formação dos professores para que os conteúdos sejam apresentados sob a perspectiva dos próprios povos originários. “A história precisa ser contada por quem a viveu e por quem faz parte dela. Isso contribui para superar narrativas colonizadoras e fortalecer o respeito à diversidade cultural”, concluiu.

Assista a entrevista completa pelo link:

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