Por Antonio Ueno — Cientista Político
As eleições de 2026 trazem um preocupante sinal de alerta vermelho: o eleitorado está abandonando as urnas. Projeções alarmantes indicam que a soma de abstenções, votos brancos e nulos podem alcançar a impressionante marca de 30% do eleitorado neste pleito.
Esse fenômeno reflete o esgotamento de um cidadão sufocado por corrupção e impostos — que fazem o histórico “quinto dos infernos” coloniais parecer modesto — enquanto assiste ao crescimento contínuo do patrimônio da classe política. Sem jogador, não há jogo, e o risco real é produzirmos “meios-representantes”, eleitos por minorias e sem legitimidade real para governar.
Esse distanciamento é fruto direto de uma das piores safras de representantes públicos do país, onde a corrupção sistêmica e a polarização extrema empurram o cidadão de bem para fora do debate. O crescimento de votos brancos e nulos funciona como um protesto ativo de quem se recusa a legitimar candidatos que não o representam.
Por outro lado, a abstenção crescente escancara barreiras logísticas e sociais dramáticas. Trabalhadores migrantes e populações de baixa renda muitas vezes não têm recursos para o transporte até suas zonas eleitorais, fazendo com que as urgências da sobrevivência diária e o desinteresse crônico se sobreponham ao dever de votar.
Os dados oficiais das urnas comprovam essa escalada de apatia. Nas eleições gerais de 2022, o Brasil registrou uma abstenção média superior a 20% em ambos os turnos. Em Mato Grosso do Sul o cenário foi ainda mais grave, com a ausência superando os 22% e acumulando mais de 48 mil votos inválidos no primeiro turno presidencial.
O colapso da participação, contudo, consolidou-se nas eleições municipais de 2024. Em Campo Grande, a abstenção saltou de 25,50% no primeiro turno para alarmantes 28,60% no segundo turno. Somando-se as ausências aos votos brancos e nulos, mais de um terço de todo o eleitorado da capital sul-mato-grossense simplesmente se recusou a escolher um prefeito (a).
Essa curva ascendente de desinteresse põe a nossa democracia em xeque. Quando o cidadão comum abre mão de sua única ferramenta de mudança por cansaço, quem perde é a sociedade, abrindo espaço para que o poder continue concentrado nas mãos de quem legisla em causa própria.
Se as lideranças políticas não resgatarem a ética e não entregarem resultados concretos ao contribuinte, o espetáculo das urnas vazias continuará. O jogo democrático precisa de eleitores ativos, mas, infelizmente, eles estão abandonando o campo.
A frase: “Perder a fé na política não é falta de cidadania; é o resultado óbvio de assistir aos mesmos erros sendo cometidos por rostos diferentes.” José Eduardo Agualusa




