Rodolfo Oliveira (*)
Com a taxa de juros acima de 15% ao ano, o mercado de private equity desacelerou. A renda fixa passou
a competir com folga contra qualquer investimento em empresa privada, e o apetite por risco caiu
junto. O setor de wellness foi na direção oposta. Com uma mudança de comportamento já em curso,
saúde preventiva havia deixado de ser gasto eventual para virar linha fixa no orçamento de uma parcela
crescente da população. Enquanto outros setores perdiam tração, esse continuava sendo comprado.
Acompanho esse movimento de perto. À frente de um fundo de private equity focado no middle
market, com mais de 26 empresas investidas e carteira superior a R$ 1,4 bilhão, vejo com frequência
empresários que subestimam o que a conjuntura de juros altos exige de uma operação. Com a Selic
onde está, investir em uma empresa privada exige retorno esperado de pelo menos 30% ao ano para
competir com a renda fixa. Isso eliminou da fila negócios sem recorrência de receita e sem governança
verificável. O dinheiro foi para onde a conta fecha, e fecha mais facilmente em setores onde a demanda
não depende do humor da economia.
O wellness se encaixou nesse perfil por uma mudança que vem de antes da pandemia, mas que ela
acelerou. Suplementação, acompanhamento nutricional e saúde preventiva de forma geral deixaram de
ser hábitos de nicho. Uma fatia relevante de consumidores passou a tratar esses gastos como
recorrentes, não como luxo cortável. Para um fundo operando com custo de capital alto, recorrência de
receita num setor em crescimento é exatamente o que justifica o risco.
Vejo com frequência empresas de médio porte que cresceram bem, têm demanda real e operação
sólida, mas não estão prontas para receber capital ou passar por uma transação. O problema raramente
está no setor ou no produto. Está na ausência de dados organizados, processos documentados e
governança que funcione independentemente do fundador. Um negócio que depende exclusivamente
de quem o criou não é um ativo, é uma pessoa.
No setor de wellness, isso ficou evidente nos últimos anos. Empresas que acumularam histórico de
dados sobre o comportamento do consumidor, que sabem quem compra, onde e com que frequência,
chegaram às negociações com um ativo que dificilmente aparece em balanço mas pesa muito na
formação de valuation. O canal farmacêutico de suplementos, por exemplo, saiu de uma movimentação
marginal para superar R$ 1 bilhão, e as empresas que estruturaram sua operação ao longo desse
crescimento estão em posição muito diferente das que apenas surfaram o volume.
Organizar governança antes de uma transação tem impacto direto no valuation. Um negócio com
múltiplo de EBITDA de 3x ou 4x pode alcançar patamares bem mais altos quando apresenta dados
auditáveis e gestão que não depende exclusivamente do fundador. Costumo dizer que o melhor
momento para vender uma empresa é quando você não quer vender. Porque aí você negocia com
poder, não com desespero.
O cenário de juros altos não é permanente. Quando a Selic ceder, parte do capital represado vai buscar
ativos de risco, e vai buscar com critérios mais altos do que antes. Empresas que usaram esse período
para se organizar tendem a estar na frente. No segmento de saúde e bem-estar, a demanda segue
crescendo. A questão, para quem opera nesse setor, é se a operação está pronta para ser encontrada.
(*) Rodolfo Oliveira é fundador e Presidente do Conselho da XR Advisor, fundo de private equity focado
em Middle Market, com mais de 26 empresas investidas.
Sobre a XR Advisor
A XR Advisor é um fundo de private equity alicerçado em quatro pilares essenciais: private equity,
consultoria estratégica, gestão de ativos e governança corporativa. Seu propósito é maximizar
resultados e reduzir custos, por meio do smart money e da otimização de pessoas, processos e
tecnologia. A partir dessa atuação, é gerada uma transformação que leva a resultados financeiros
sustentáveis. Os clientes são apoiados financeiramente e em todo o fluxo empresarial, de acordo com a
necessidade, sempre em busca da alta performance. Saiba mais: www.xradvisor.com.br
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