Entrevistando o Dr. Flávio Barbosa

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Dr. Flávio, a questão política na sua vida profissional e representativa por ter sido presidente do sindicato dos médicos do Mato Grosso do Sul, demonstra um espírito participativo na sociedade. O que tem de propostas para as eleições de 2022?

Todos nós temos um tempo na vida, e a vida não escolhe o dia. Eu fiz política a minha vida toda mesmo sem ser político e corri da política partidária, mas chega um momento que a gente tem que enfrentar essas demandas. Eu sempre digo que faço compromisso com as pessoas firmado na Rocha, e não no papel. Por isso, independente do resultado do pleito, eu tenho que ter ambiente de voltar em cada casa que passei, com cada pessoa que conversei. O importante está nas relações com as pessoas, afinal, o que a gente leva da vida são as relações. O que a gente fez, o que a gente é. Eu vivo uma camada da sociedade marginalizada, por exemplo: sou médico e tenho um plano de saúde satisfatório e ainda assim sofro, às vezes, por saúde… fico imaginando aqueles que não possuem nada disso. Eu vejo tanta gente falar, mas o que querem para as pessoas? Projeto ou propósito? Se futuramente Deus me permitir virar deputado eu preciso considerar esse tipo de propósito na vida das pessoas. Penso ainda que, se conseguir fazer um pouquinho disso, isso vai fazer uma diferença na vida das pessoas.

Você é membro da comissão nacional pró SUS, ela surgiu por quê?

Essa comissão é composta em Brasília por pessoas de todo o Brasil, com médicos do Einstein, do Sírio Libanês, do Mato Grosso do Sul assim como eu, e outros que já passaram por lá. A intenção do PROSUS é defender o SUS. Eu sou um defensor do SUS! Mas o SUS é feito de várias coisas, e dentre elas o recurso humano. O recurso financeiro, ele existe, mas o Ministério da Saúde tem um dos maiores orçamentos (aproximadamente R$ 180 bi) para a saúde, e eu pergunto a você, a saúde funciona? Meu celular desde de manhã está aqui com mensagens, de pessoas que não conseguem exames, não conseguem cirurgia, a fila não anda….

Mas tem estados em que a gestão do SUS é diferente do nosso centro-oeste brasileiro

Com todo respeito aos gestores que já passaram pelas Secretarias estaduais e municipais e em outros campos, mas as pessoas estão em segundo plano! O que é o ser humano sem saúde? O que nós fazemos sem saúde? Nada. A gente não vive, a gente não tem lazer, não tem família… saúde é bem primordial e eu sou um defensor da vida. Se não tem vida, não tem saúde. A vida em primeiro lugar. E a vida não tem preço. A minha e de nenhuma outra pessoa. Não tem vida que valha mais que a outra. Essas distinções precisam ser corrigidas.

Estamos com um problema na Santa Casa no momento…

Exatamente! Há muito tempo é debatida a questão da Santa Casa de Campo Grande. Mas e aí? Vamos só ficar só debatendo? Até quando?

Doutor, uma das suas principais bandeiras é a saúde, o que pensa para ser colocado em prática para melhorar a saúde da população, se eleito?

Eu serei um promotor dentro da Assembleia Legislativa. E como o promotor trabalha? Na provocação. Eu vou provocar o Estado, vou provocar o gestor com ideias e situações que possam melhorar a qualidade de vida das pessoas. Simples. O investimento tem que ser no cidadão, tem que ser nas pessoas. É necessário um olhar holístico e humanizado. Se hoje uma pessoa enfartar, por exemplo, ela vai conseguir chegar mais rápido em um cardiologista do que se ela surtar. Um paciente de surto psicótico hoje não tem pra onde levar, não tem hospital psiquiátrico, nem municipal nem estadual em MS, pois se furtam disso. Esse compromisso é um compromisso com a sociedade, é um ponto a ser revisto. Não podemos ver isso como custo, mas sim como investimento nas pessoas. Alguém tem que encarar essa bronca e esse alguém sou eu. Se assim for permitido, e conseguir, eu vou encarar. Não posso chegar amanhã ou depois representando as pessoas e mudar o discurso, vai ter que ser uma pauta de vida. Por isso que eu digo: me avalie como pessoa, se tenho as características que talvez sirva para você, procure saber o que quer pra sua vida, o que o Flávio pensa para o futuro, pois não adianta discutir o que já passou. Temos que viver o presente. É assim que eu penso nessa nova caminhada minha.

Na área de recuperação de dependentes do uso de álcool e drogas, faço uma correlação com a estatística da violência que não passa pela área da saúde, mas sobre a política pública sobre segurança. O que pode me dizer?

Sobre a recuperação, falo com muita propriedade: é um dos maiores problemas de saúde pública do país, não tenho dúvida disso. Desde o meu primeiro dia como médico, escolhi trabalhar na rede pública de atendimento aos jovens e adolescentes que tenham problema com álcool e drogas, fiz isso e faço até hoje, pois sou médico do CAPS-AD. Por isso me envolvi com as comunidades terapêuticas e seus projetos, assim como as igrejas que abraçam essa causa e fazem uma diferença na vida dessas pessoas. Infelizmente se um usuário de álcool e drogas chega a óbito, muitos da sociedade vão considerar como um peso social a menos, mas pra família não. Se for uma criança que vem a óbito, por exemplo, por meningite, vai ser uma grande comoção social. E o que me leva a crer que um ou outro tem a diferença como ser humano? Eu não consigo ver essa diferença no meu dia a dia. Aprendi isso dentro do sistema prisional: quando fui fazer atendimento e acabei encontrando o relato de um jovem que dei muito conselho e depois o encontrei no presídio. E ele me disse: Dr, porque não ouvi o senhor? Eu respondi: por que não era o seu tempo ainda. Hoje ele cumpriu sua pena, saiu do sistema prisional e não voltou mais a cometer outro delito. Porque a situação de vida dele era diferente do outro. A gente tem mania de se comparar com as outras pessoas. Não podemos fazer essa comparação, cada um tem um perfil, tem uma meta diferente do outro e quando nos comparamos, nos diminuímos.

Só existe uma medicação que pode tirar qualquer pessoa dependente químico e está dentro de você, que é a sua vontade, determinação e o seu desejo de sair dessa situação, não é? Se existissem medicamentos para isso não teríamos mais nenhum dependente nesse país. Não podemos desistir das pessoas. Você já viu pai e mãe desistir de algum dependente químico? Eu não.

Qual sua visão sobre os centros de reabilitação, sabendo que se faz necessário um atendimento científico para a ressocialização?

O SUS é referência na gestão plena no município com o CAPS-AD, que é aquele que já mencionei. Segundo a portaria do Ministério da Saúde, para cada duzentos mil habitantes há necessidade de ter um (1) CAPS-AD. A cidade de Campo Grande está próximo de ter um milhão de habitantes, então quantos CAPS-AD teríamos que ter na cidade? Cinco, e nós temos apensas um. Então a porta de entrada é pequena: toda a cidade de Campo Grande, quase um milhão de habitantes tendo uma única porta de entrada para atendimento. É pouco. A lei precisa ser cumprida.

Qual o projeto para ajudar as igrejas com os dependentes químicos?

Há um trabalho maravilhoso de doação nas comunidades com as igrejas evangélicas, como Projeto Jaboque, Esquadrão da vida, Projeto Simão, entre outros. Os pastores que conduzem esse trabalho são fantásticos. É uma dedicação sem tamanho. A exemplo deles, precisamos criar a projeto e não politicagema, chegando lá o que farei? Eu não vou doar dinheiro através de verba, mas sim criar o projeto para a verba ser definitiva anualmente, semestralmente. Pois eu deixando a Assembleia Legislativa, fica o legado. Essas pessoas recebem a conveniência de um e outro, tem que ser um projeto definitivo. Então uma entidade que atende tantas pessoas, uma quantia a cada seis meses e assim por diante, mas tem que ter projeto, um projeto para eles.

Qual seu projeto para o interior do Estado na área da saúde?

Conheço bem o interior, pois além de ser de Cassilândia, atuo em Dois Irmãos do Buriti há sete anos. Por ser uma população que possui assentamentos, comunidades indígenas, pessoas com baixa renda, fizeram um projeto do qual fiz parte, e o resultado foi bom, e o que precisa ter? Precisa ser plural vindo do governo, pois as prefeituras são muito limitadas nessa questão do investimento. Então o que fez um médico especialista ir para o interior? Talvez o atrativo financeiro. Essas cidades menores, todas dependem de Campo Grande, mas a capital já tem um milhão de habitantes com uma porta de entrada, se o interior chegar até a capital, também não vai ter atendimento, sempre relembro isso, dinheiro tem, mas está faltando vontade, de quem eu não sei, mas se tiver lá vou descobrir, por que a minha não vai faltar.

Você ocupa a cadeira como Conselheiro Federal de Medicina, além de ser membro da Comissão PRO-SUS. É possível ter uma melhora, considerando a questão orçamentária?

Sim, esse é o grande desafio, eu não dúvida, sempre trago a seguinte informação, todas as vezes que viajo para qualquer lugar no Brasil ou até fora, a primeira pergunta que faço para os residentes é: como é a saúde aqui? Se você adoece onde procura atendimento? Se tem locais que a saúde funciona, porque aqui não funciona? Por que acabo recebendo inúmeros pedidos de ajuda de endoscopia, ressonância, cirurgia de vesícula, cirurgia ortopédica, por quê? Se fala que tem tanto médico, que não faltam médicos, que não faltam hospitais. Qual é a explicação? Também quero saber e trazer a resposta para as pessoas, preciso ser a pessoa lá dentro da Assembleia Legislativa para descobrir por que é tão difícil ter projeto, situações que resolvam as filas intermináveis de cirurgia de vesícula, de joelho, de ombro, de catarata. E pergunto a você, o hospital é de quem? É das pessoas, para as pessoas, pago com o dinheiro delas! O maior hospital do Estado é o Regional, que não tem serviço de ortopedia. E o Município que tem o serviço de ortopedia não é dele, é da Santa Casa. E o que falta?

Quais bandeiras você defende?

As bandeiras são muitas, mas a principalmente as pessoas. Venho lendo e acompanhando alguns amigos que são de vários partidos. Eu sou do MDB e vesti a camisa do meu partido, do meu candidato ao governo e das minhas convicções; e sempre digo eu não tenho projeto, eu tenho propósito na vida das pessoas, é diferente. É um propósito de vida, quem me conhece entende. Como costumo dizer: posso até perder a eleição falando a verdade, mas não vou ganhar mentindo, não vou mentir para as pessoas, tenho um compromisso comigo, com Deus, com minha família. Vou seguir o que faço em vida e sempre falo: se não sou a pessoa que vai servir dentro dos seus anseios para a política, me investigue! Investigue seu candidato, seja quem for, o que ele fez, se é um bom pai, uma boa pessoa no dia-a-dia, veja se tem amigos, veja se é querido no trabalho, isso é importante.

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