Em um movimento que atropela promessas de campanha e acordos firmados com o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS), a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), retirou do Portal da Transparência o acesso simplificado aos valores extras pagos a secretários e aliados. A decisão de ocultar a chamada “Folha Secreta” ocorre após denúncias revelarem pagamentos exorbitantes que, em alguns casos, ultrapassam os R$ 80 mil mensais para um único servidor.
A manobra da invisibilidade
Até a última semana, o cidadão conseguia consultar os valores na aba “Outros Pagamentos”. Agora, a opção foi removida sem aviso prévio. Para acessar os dados de “penduricalhos” que dobram os salários dos secretários, é necessário possuir o CPF e o número de matrícula do servidor — uma barreira técnica que fere o princípio da publicidade na administração pública.
Austeridade seletiva
O discurso de “gestão austera” da prefeitura contrasta drasticamente com os números. Enquanto os servidores municipais enfrentam um jejum de reajuste salarial há três anos, o primeiro escalão goza de gratificações “livres de impostos”.
- Ulisses Rocha (Governo): Recebeu R$ 81.235,71 em um único mês (novembro/2025). O valor equivale a 53 salários mínimos, quatro vezes o subsídio da própria prefeita e o dobro do salário do Governador do Estado.
- Thelma Lopes (Casa Civil): Concunhada da prefeita, recebeu R$ 33.398,54. Mesmo com o suposto corte de 20% no subsídio, a “folha oculta” de R$ 18.175,42 (isenta de IR e Previdência) garantiu um rendimento real muito superior ao teto.
- Andréa Rocha (Administração): Responsável por comandar o arrocho salarial da categoria, recebeu R$ 32.396,12, valor 50% acima do teto do funcionalismo.
O “Drible” no Fisco
Um dos pontos mais graves apontados por especialistas e pelo TCE é a natureza desses pagamentos. Classificados como verbas indenizatórias para evitar a tributação, os valores são pagos mensalmente, o que os caracteriza legalmente como verba remuneratória. Na prática, a prefeitura deixa de recolher Imposto de Renda e contribuição previdenciária sobre esses “extras”, configurando uma possível irregularidade fiscal e constitucional.
A conta chega via IPTU
Para sustentar uma máquina que consome 99,6% dos R$ 6 bilhões arrecadados com custeio, a prefeitura impôs um pesado sacrifício aos contribuintes. O IPTU 2026 chegou às mãos dos campo-grandenses com aumentos abusivos de até 396%, além da redução do tradicional desconto de 20% para apenas 10%.
“É um escárnio. Falta remédio nos postos, as ruas estão tomadas por buracos e o investimento é zero, mas a ‘folha oculta’ para os parentes e aliados está sempre em dia”, afirma um dos advogados que move ação contra o reajuste do imposto.
Próximos passos
A OAB/MS e a Associação dos Advogados Independentes já acionaram a Justiça para tentar derrubar o aumento do IPTU e garantir o retorno da transparência total nas contas municipais. O TCE-MS também deve ser provocado a se manifestar sobre o descumprimento do acordo de moralização assinado pela prefeita.
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