Neste final de janeiro de 2026, Mato Grosso do Sul não traz apenas o calor típico da estação, mas uma fervura institucional que atinge o ápice. Entre operações do GAECO e suspensões preventivas do Tribunal de Contas (TCE-MS), o cenário político sul-mato-grossense desenha um mapa de fragmentação ética que se estende da capital ao interior. O que se vê não é um erro administrativo isolado, mas um modus operandi sistêmico onde a corda, como de costume, busca o pescoço do “Boi de Piranha”.
De Terenos a Campo Grande
As operações Collusion e Simulatum, deflagradas em 21 de janeiro, colocaram a cidade de Terenos no olho do furacão. O afastamento do prefeito e a investigação de fraudes em materiais gráficos revelam uma ferida aberta.
Enquanto isso, em Campo Grande, o fantasma da iluminação pública (COSIP) persiste. Mesmo após investigações que remontam a 2025, empresas sob suspeita continuam operando um contrato de R$ 110 milhões, evidenciando que, na estrutura do poder municipal, as engrenagens da “ratoeira” parecem projetadas para proteger os ratos e punir quem aponta o queijo roubado.
A “Folha Secreta” e o Abismo Social
O contraste na capital é violento e vergonhoso:
- A Bonança do Gabinete: Relatos de secretários recebendo vencimentos na casa dos R$ 91 mil (novembro/2025). Com base no repasse do duodécimo — equivalente a 4,5% da receita —, a prefeita Adriane Lopes destinou à Câmara Municipal de Campo Grande cerca de R$ 200 milhões no exercício de 2025.
- A Escassez nos Bairros: Falta de dipirona nos postos de saúde, um vácuo de R$ 156 milhões no SUS municipal e aumentos de IPTU que chegam a estratosféricos 396%.
A gestão parece governar para o algoritmo das redes sociais, enquanto as “mães atípicas” e os moradores das áreas de enchente enfrentam a realidade nua e crua do abandono.
O Caso Eli Souza
A prisão do empresário e radialista Eli Souza, na esteira das investigações do GAECO, levanta o debate clássico de Mato Grosso do Sul: quem é o sacrificado? No jargão pantaneiro, o “Boi de Piranha” é o animal doente ou menos valioso jogado ao rio para distrair os predadores enquanto o restante da boiada (os verdadeiros detentores do poder) atravessa em segurança. A tese de que figuras como Eli Souza, pequenos empresários ou secretários municipais são usados como bodes expiatórios para blindar os “peixes grandes” ganha força.
Entre a Omissão e a Reação
O levantamento dos últimos cinco anos é alarmante: 11 prefeituras foram alvo de operações. O TCE-MS tem atuado como freio de emergência, suspendendo licitações que somam milhões por falta de pareceres básicos e indícios de superfaturamento.
“Punir a Ratoeira em vez do Rato” tornou-se a crítica central à justiça fiscal e política de MS. Quando o sistema sufoca o cidadão e a fiscalização foca no erro formal, mas ignora o enriquecimento ilícito nos gabinetes, a democracia entra em colapso moral. A pergunta que resta é: Quantos prefeitos estão presos? Quanto dinheiro foi recuperado? Como andam, de fato, esses processos?
Um Estado em Xeque
Mato Grosso do Sul atravessa um período em que as instituições (MPE, MPF, TCE e Câmaras) estão sendo testadas. Não basta suspender o edital; é preciso desmontar a estrutura que permite que o “Boi de Piranha” continue sendo a única solução para aplacar a sede de justiça da opinião pública.
Sem uma maior transparência e um rigor real nos contratos de iluminação e saúde, o cidadão continuará pagando a conta de um banquete para o qual nunca foi convidado.
Prefeituras que receberam visitas do GAECO:
Fonte: https://www.mpms.mp.br/gaeco
- Campo Grande: Alvo de múltiplas ações, como a Operação Cascalhos de Areia e a recente Operação Apagar das Luzes (dezembro de 2025), que investiga superfaturamento em torno de R$ 110 milhões.
- Terenos: Recentemente impactada pelas operações Collusion, Simulatum (janeiro de 2026) e Águas Turvas, focadas em fraudes em licitações e contratos.
- Sidrolândia: Alvo da Operação Tromper, que investigou esquemas de corrupção e resultou na prisão de vereadores e empresários.
- Bonito: Visitada durante a Operação Águas Turvas em outubro de 2025.
- Maracaju: Alvo da Operação Dark Money, que investigou desvios milionários em gestões anteriores.
- Dourados: Frequente alvo de operações de apoio e investigações sobre fraudes contratuais.
- Aquidauana: Registro de prisões de servidores por desvios e irregularidades em combustíveis.
- Naviraí: Alvo de ações contra organizações criminosas e corrupção pública.
- Ponta Porã: Foco de operações contra o crime organizado.
- Ribas do Rio Pardo: Investigada por irregularidades em contratos públicos durante o período de expansão industrial.
- Ivinhema: Operações focadas em fraudes licitatórias e desvios de recursos.
Liberdade
Embora muitos prefeitos respondam a processos na justiça, nenhum está preso em Mato Grosso do Sul. O sistema judiciário mantém diversas investigações ativas, mas não há prefeitos em prisões.
Por Antonio Ueno – Cientista Político






