Zanzibar, terra do Nobel de Literatura de 2021, viveu ocupação portuguesa por 200 anos

Hoje, o arquipélago do oceano Índico de cerca de 1,5 milhão de habitantes é conhecido principalmente como destino turístico

FOLHAPRESS) – O arquipélago de Zanzibar, banhado pelo oceano Índico e terra natal do vencedor do Nobel de Literatura de 2021, Abdulrazak Gurnah, 73, é com frequência descrito como um território que sediou o cosmopolitismo muito antes de a globalização ter início.

Parte dessa história teve participação lusitana: por quase dois séculos, o território, hoje parte da Tanzânia, foi ocupado por Portugal. E o interesse do país europeu pela região vinha justamente das trocas ali realizadas, já que as ilhas de Zanzibar –Unguja e Pemba– foram um dos principais entrepostos comerciais da África Oriental.

Uma das primeiras ocupações muçulmanas na região, o arquipélago ficou sob colonização portuguesa do início do século 16 até o final do século 17. Mas o modelo colonial foi um tanto diferente daquele adotado em países como Brasil, Moçambique, Angola e Cabo Verde.

“Está longe de ser uma colonização efetiva”, explica Thiago Folador, mestre e doutorando em história pela USP (Universidade de São Paulo). “Portugal consegue exercer o controle econômico e político, mas com instabilidade, e não há impactos culturais duradouros.”

Com uma ocupação marcada por saques constantes e violência em busca do controle da circulação de mercadorias com as Índias, o império ultramarino português viu resistência e chegou a conviver com sultões que ocupavam a costa das ilhas e mantinham certa autonomia.

A exemplo do que fez nas demais colônias, Portugal também levou para a região missionários religiosos da ordem dos agostinianos que desejavam converter os habitantes, de maioria muçulmana, para o cristianismo. Registros mostram que, no ano de 1599, cerca de 600 pessoas foram convertidas no arquipélago, segundo Folador.

A presença lusitana chegou ao fim nos anos finais do século 17, quando Omã –hoje apenas um pequeno sultanato da Península Arábica, mas então um império de fronteiras além-mar– tomou o controle da região. Na década de 1840, Zanzibar chegou a ser a capital de Omã.

Foi nessa época que o arquipélago se tornou o que hoje é considerado o maior centro do comércio de escravos da África Oriental, ainda que inexistam estimativas consensuais sobre o número de africanos dessa porção do continente que foram vendidos por árabes muçulmanos. O regime escravocrata ganhou fôlego quando, a partir da década de 1830, foram estabelecidas grandes culturas de cravo –especiaria histórica de Zanzibar.

Em 1873, o então sultão, Seyyid Barghash, assinou um tratado que tornou ilegal o comércio de escravos no arquipélago após pressão da Grã-Bretanha, quando Zanzibar já era um protetorado inglês. A prática, porém, só se tornou ilegal nas ilhas dali a mais de três décadas, em 1909.

Com tamanha troca cultural, a dominação portuguesa em Zanzibar –extensa em números absolutos, mas breve do ponto de vista histórico– não é objetivo de grandes estudos, explica o historiador Thiago Folador. As línguas oficiais do arquipélago são suaíli e inglês.

Reportagem da emissora britânica BBC mostrou que, na ilha de Pemba, uma dança marcial enraizada na tradição cultural –o kirumbizi– teve origem no treinamento de guerrilha da população local contra o domínio português. Homens e mulheres participam da manifestação, que envolve uso de cassetetes e música.

Um festival semanal do país, preenchido por tradições culturais históricas, conta com o kirumbizi e também com touradas, trazidas para Zanzibar pelos portugueses –a prática difere da tourada “à espanhola” em algumas características, como o fato de o touro não poder ser morto na arena.

O embrião cosmopolita de Zanzibar, porém, não impediu que o arquipélago também fosse palco de perseguições. Poucos meses após conquistar sua independência no ano de 1963, a região mergulhou em uma revolução que derrubou o último sultão do arquipélago, Jamshid bin Abdullah al-Said, e perseguiu a minoria árabe da região.

Na sequência, o arquipélago se uniu à continental Tanzânia. Hoje, é uma região semiautônoma –com uma Presidência diferente e um movimento separatista que, ainda que enfraquecido, se mantém ativo.

Foi pouco após essa época que o Nobel da Literatura Abdulrazak Gurnah –primeiro autor da Tanzânia e segundo homem negro africano laureado– se exilou do arquipélago e radicou no Reino Unido. As temáticas do colonialismo, dos refugiados e da migração predominam em suas obras.

“Admiring Silence”, livro que publicou em 1996, por exemplo, narra a história de um jovem que retorna a Zanzibar duas décadas depois da mudança para o Reino Unido, onde se casou com uma crítica literária britânica e trabalhou como professor.

A história, em partes, é similar à do próprio autor, que só pôde voltar à sua terra natal em 1984, embora tenha mantido os vínculos. “Vou lá tanto quanto posso. É de onde venho. Na minha cabeça, ainda moro ali”, disse Gurnah em entrevista à agência de notícias AFP.

Quem também nasceu em Zanzibar foi Freddie Mercury (1946-1991), ex-vocalista da banda Queen. Assim como a família de Gurnah, a de Mercury emigrou para o Reino Unido na década de 1960. O cantor foi homenageado com um museu na Cidade de Pedra, capital da ilha de Unguja que foi declarada Patrimônio da Humanidade em 2000.

Hoje, o arquipélago do oceano Índico de cerca de 1,5 milhão de habitantes é conhecido principalmente como destino turístico, devido às praias paradisíacas e aos tours históricos. Mercados de rua, bazares, fortes militares, mesquitas e bares e suítes sobre pilastras erguidas dentro no mar fazem parte do plano de viagem dos turistas.

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