“Farinha pouca, meu pirão primeiro” é um ditado popular brasileiro que denota egoísmo e a priorização do benefício próprio, especialmente em situações de escassez ou crise. A expressão indica que, quando os recursos são limitados, o indivíduo garante a sua parte antes de pensar no coletivo.
A recente ofensiva do ministro Flávio Dino (STF) contra o chamado “Império dos Penduricalhos” colocou uma lupa sobre uma prática que, em Mato Grosso do Sul, beira o surrealismo financeiro. Enquanto o cidadão comum sul-mato-grossense sobrevive com uma baixa renda, uma elite do funcionalismo público opera em uma realidade paralela, onde o teto constitucional parece ser apenas uma sugestão distante.
A canetada de Flávio Dino
O ministro determinou a suspensão imediata de benefícios que extrapolam o teto constitucional nos Três Poderes. Com um prazo de 60 dias para revisão, Dino classificou como “anômalas” verbas que variam do exótico ao abusivo. O objetivo é claro: impedir que o teto de R$ 46.366,19 seja atropelado por uma enxurrada de gratificações.
Rigor com os outros
O cenário mais intrigante ocorre no Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). O órgão tem sido um combatente implacável contra o aumento de salários de políticos locais, mas parece encarnar outro ditado: “casa de ferreiro, espeto de pau”.
Recentemente, o MPMS barrou aumentos de prefeitos em diversas cidades, alegando falta de impacto financeiro e desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal.
O argumento do MPMS é pautado na moralidade e na eficiência. No entanto, essa mesma régua moral não parece ser aplicada aos seus próprios membros.
O Raio-X da Incoerência
Enquanto o MPMS classifica como “imoral” um prefeito ganhar R$ 40 mil, o Portal da Transparência revelou que, em dezembro de 2025, 17 membros do próprio órgão receberam entre R$ 302 mil e R$ 351 mil em um único mês.
Como um subsídio de R$ 41,8 mil se transforma em R$ 350 mil? A resposta está na engenharia dos “penduricalhos”:
- 13º Salário: R$ 57,8 mil
- Verbas Retroativas: R$ 104,8 mil
- Indenizações (Saúde, Alimentação, Licenças): R$ 119,5 mil
O Contraste: Para acumular o que um único procurador recebeu em dezembro, um trabalhador médio de MS precisaria trabalhar 8 anos e 7 meses.
Transparência de “Vidro Fosco”
Outro ponto crítico é a opacidade. Diferente do Governo do Estado e do TJMS, o MPMS opta por não divulgar os nomes dos beneficiários ao lado dos valores em seu portal, dificultando o controle social. O órgão alega seguir normas do CNMP, mas a falta de transparência nominal em tempos de crise ética apenas alimenta a suspeita de proteção corporativista.
É preciso dar o exemplo
Não se questiona o mérito ou a importância do Ministério Público como fiscal da lei, mas sim a sua coerência. Ao combater os “supersalários” de prefeitos e vereadores — que, embora altos, muitas vezes são inferiores ao que um promotor recebe apenas em auxílios — o MPMS perde a autoridade moral para cobrar austeridade dos demais poderes.
O julgamento do STF, marcado para o dia 25 de fevereiro, será o divisor de águas. Resta saber se o MPMS continuará sendo o “fiscal da lei” que olha apenas para o quintal dos vizinhos ou se aceitará que a moralidade administrativa deve começar de dentro para fora.






