A 1ª edição do programa Jornal da Top, da Rede Top FM, que em Campo Grande pode ser sintonizada na 88,9 FM, encerrou a semana nesta sexta-feira (16) entrevistando a ex-ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, que abordou sobre sua trajetória política, sua experiência no ministério e a importância de legislações-chave para a proteção das mulheres no Brasil.
“Minha experiência foi desafiadora como ministra das Mulheres no governo do presidente Lula (PT), pois minha participação foi fundamental na construção de leis históricas como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e a Lei da Igualdade Salarial. Na minha opinião, a democracia é importante na luta contínua por uma sociedade mais justa e igualitária para as mulheres”, disse.
Cida Gonçalves lembrou que sua militância teve início em 1980 no movimento popular de mulheres e, até hoje, se mantém otimista, acreditando nas pessoas e no Brasil, mesmo aos 64 anos. “Minha luta principal é pela garantia de que as mulheres ocupem os lugares que desejarem, da forma que quiserem”, afirmou.
Ela ainda se descreveu como uma mulher pequena, cheia de esperança, que acredita na democracia como pilar essencial para a existência de mulheres, negros e a diversidade. “Assumi o ministério em 2023 após um período de desconstrução de sete anos (governos Temer e Bolsonaro), que impactou a legislação e o orçamento. O orçamento inicial do ministério em 2023 foi de apenas R$ 23 milhões, considerado insuficiente para atender todos os estados”, recordou.
A ex-ministra acrescentou que enfrentou o desafio de reestruturar o ministério e combater a misoginia e o ódio contra as mulheres, que vinham resultando em altos índices de feminicídio em todo o Brasil. “Meu objetivo era trazer esperança e reafirmar o valor e o respeito às mulheres. Por isso, estive diretamente envolvida na construção de três legislações cruciais: a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e a Lei da Igualdade Salarial (aprovada em 2023)”, informou.
Cida Gonçalves ressaltou que sempre acreditou no sucesso dessas leis, vendo-as como medidas eficazes para a proteção das mulheres. “A Lei Maria da Penha foi pensada pelo Movimento de Mulheres desde 2002. Sua construção envolveu um amplo debate nacional com o movimento, governo, Poder Judiciário e Congresso Nacional. Enfrentei resistência de deputados que acreditavam que os juizados de pequenas causas eram suficientes, mas a violência contra a mulher exigia uma lei específica, pois a compensação com cestas básicas era inadequada”, argumentou.
Delegacias especializadas
A ex-ministra fez questão de abordar também os atendimentos nas delegacias especializadas para violência contra as mulheres. “Considero o atendimento e a segurança pública um desafio contínuo, pois é importante um bom acolhimento nas delegacias, que são uma das principais portas de entrada para denúncias de violência”, reforçou, mencionando a necessidade de mudar a forma como os profissionais são levados para as delegacias.
Para ela, é crucial que os profissionais que atuam em serviços especializados para mulheres tenham vocação para o trabalho, não sendo designados por falta de opção ou como um “castigo”. “As delegacias da mulher têm uma carga de trabalho significativamente maior e inquéritos mais complexos do que outras delegacias, exigindo a escuta da vítima e do agressor, além da solicitação de medidas protetivas”, comentou.
Cida Gonçalves revelou que há uma percepção de que as delegacias das mulheres são lugares “menores” em comparação com áreas mais “prestigiadas” da segurança pública, o que dificulta a alocação de profissionais dedicados, impactando negativamente o atendimento. “Recebo relatos de longas esperas e mau atendimento, como o caso de uma mulher que esperou das 23 horas até às 3 horas para ser atendida, o evidenciam as falhas no sistema”, assegurou.
A ex-ministra enfatizou a necessidade de denunciar casos de mau atendimento. “As denúncias podem ser feitas nas ouvidorias da Polícia Militar ou Civil do Estado, ou diretamente na ouvidoria do Ministério das Mulheres, que tem a obrigação de tomar providências. O caso da jornalista Vanessa Ricardi, que foi morta pelo ex-noivo e divulgou antes de ser morta o péssimo atendimento na delegacia especializada, serve de exemplo da importância de debater a preparação dos profissionais”, relatou.
Sobre os planos pós-mandato no Ministério das Mulheres, ela declarou que não tem pretensão de concorrer a cargos em 2026, mas não se fecha a futuras conjunturas. “Reabri minha empresa de consultoria, pois sou especializada em gestão pública, orçamento, pesquisa e diagnóstico. Eu atuava nacional e internacionalmente. Também estou oferecendo palestras sobre os direitos das mulheres”, revelou.
Cida Gonçalves ressaltou também a importância de espaços de debate e da informação correta para garantir a igualdade de gênero, combatendo as fake news que prevalecem atualmente. “Eu defendo que as mulheres precisam de incentivo para denunciar e saberem que não estão sozinhas. Quero fazer um apelo para acreditar na democracia brasileira e nas políticas públicas, independentemente de partidos. Chega de polarização política”, conclamou, pedindo o retorno à solidariedade e à paciência nas relações humanas.
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