O Jornal da Top, da Rede Top FM, entrevistou, na sexta-feira (18), a psicóloga e psicanalista Catia Bonini Cordoniz, que abordou o excesso do uso de telas e de redes sociais na vida das crianças e adolescentes. “Para vocês terem uma ideia, a recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) é de que não haja tela na primeira infância e, para os adolescentes de 12 anos para frente, tenha no máximo duas horas por dia”, informou.
Ela completou que, atualmente, as estatísticas observaram que muitas crianças e adolescentes têm, em média, de sete a oito horas por dia. “Na adolescência, que na psicanálise é classificada como um segundo nascimento e vai dos 11 aos 25 anos de idade, é o tempo de maior plasticidade cerebral da pessoa. Por isso, toda a parte neuroquímica e neurofísica está muito aberto para estímulos, portanto, o que a gente observa é que as redes sociais entram com uma estimulação exacerbada para uma mente que não tem condições de elaborar e isso vai causar problemas sérios de aprendizagem”, alertou.
Catia Cordoniz explicou que, na fase dos 11 anos em diante, os filhos passam de um raciocínio mais concreto para um raciocínio mais abstrato. “Vocês imaginem toda essa informação que a internet e as redes sociais promovem em uma cabecinha que não tem condições ainda de perceber o seu mundo, a sua realidade interna e a realidade externa. Não sei se vocês tiveram a oportunidade de assistir aquela série Adolescência, da Netflix, em que um garoto que sofre bullying pela rede social mata uma amiga da escola. É muito chocante porque quando você assiste se põe no lugar do adolescente, da menina que morreu, dos pais, da escola e da Polícia, porque a gente podia estar no lugar de cada um deles”, pontuou.
A psicóloga e psicanalista argumentou que é possível verificar ao assistir a série que como realmente a internet age na mente de um adolescente. “Na série, percebemos como a mente de um jovem é muito frágil nesse sentido de uma neurologia muito plástica que recebe aquela estimulação e não processa. Então, diminui muito o tempo entre o que é real e o que é a verdade, que é a realidade interna e externa, aumentando a violência e a impulsividade. Tanto que vocês observam que o menininho não tinha clareza que tinha matado a colega porque essa coisa da realidade e ficção fica muito confusa nessa fase da vida humana”, assegurou.
Pandemia da Covid-19
Ainda durante a entrevista, ela abordou os efeitos da pandemia da Covid-19 na vida de todos nós e acrescentou que foi um divisor de água para a humanidade. “Eu penso que nós éramos um antes e somos outros depois. Quem saiu melhor, saiu meio ‘ruimzinho’. Agora, vocês imaginem uma criança que precisa ter uma rotina, que ajuda muito no crescimento dela, ser tolhida. Todos nós fomos tolhidos da nossa rotina, do nosso dia a dia e ficamos em casa. Tivemos muitos ganhos, porque tivemos pais e mães brincando muito mais, mas também tivemos crise nos casamentos. Se vocês olharem a questão dos casamentos, muitos foram detonados pela convivência direta, não tinha aquele espaço do seu trabalho”, recordou.
No caso dos adolescentes, de acordo com a especialista, eles também ficaram mais contidos, motoramente, pois tinham de ficar em casa, trancados. “Muito mais voltados para as redes sociais, até por uma necessidade, já que a escola passou a ser oferecida dessa maneira. Portanto, quem que garantia, por exemplo, que o filho estava estudando ou estava em outro lugar da Internet? Eu costumo dizer que quando o filho está em casa, no quarto, no computador, ele não está em casa”, analisou.
Catia Cordoniz completou que o adolescente se recolher é normal, pois todos nós nos recolhemos na adolescência, mas agora é diferente, porque ele entra em um mundão que a gente não conhece e não tem ideia. “Para ajudar nessa questão, nós temos um projeto que se chama ‘SOS Brasil’, que é ligado à Federação Brasileira de Psicanálise e, atualmente, conta com 90 psicanalistas ou analistas de informação que trabalham voluntariamente, atendendo online, gratuitamente, pessoas de todo o Brasil”, informou, revelando que a clientela é formada por bebês, crianças, adolescentes e adultos.
Ela informou que coordena um ateliê de colegas que atendem adolescentes. “Então, as pessoas que estão sofrendo, que estejam precisando ou querendo um atendimento online gratuito, com profissionais muito bons, é só entrar no site do SOS Brasil e se inscrever para um atendimento”, aconselhou.
Com relação a situações de ansiedade, a psicóloga e psicanalista disse que não seria prudente generalizar, mas, estudando a adolescência, é nessa fase do desenvolvimento humano que mais aumenta a irritabilidade, a dificuldade de concentração, de falta de sono e, também, de sentimentos depressivos devido ao momento que a humanidade está vivendo, com muitos jovens envolvidos com a Internet.
Para concluir a entrevista, Catia Cordoniz revelou que, de 2021 até agora, já ofereceu mais de 5,7 mil consultas e, dessas, mais de 4,8 mil foram frequentadas. “Porque, às vezes, a pessoa procura a consulta, mas não faz. A gente está realizando um trabalho muito bacana e costumo dizer que a gente tem que se tornar psicólogos e psicanalistas necessários”, brincou, reforçando que a diferença dela para os outros é que enlouqueceu antes e, por isso, começou a se tratar antes.
“Essas coisas que a gente sente, medos, angústias, tristezas e desesperos, são humanas e que sempre tem uma possibilidade de cura. Por isso, não desistam, procurem uma clínica social, ou uma instituição, ou consultórios particulares que têm espaço para todo mundo ser acolhido na sua dor. O que eu posso passar para vocês é que não percam a esperança. Viver é muito bacana”, encerrou.
Assista a entrevista completa pelo link:








