A complexa teia geopolítica do Oriente Médio e o papel das potências globais em meio aos conflitos atuais foram os temas centrais da entrevista concedida pelo historiador e professor Jorge Cristian Fernández ao Jornal da Top nesta terça-feira (17). Doutor em História e especialista em Guerra Fria, o professor trouxe uma análise profunda sobre a ineficácia dos organismos internacionais e o que chamou de “decadência gradual” da hegemonia norte-americana.
Questionado sobre o porquê de o Oriente Médio ser uma região permanentemente explosiva, Fernandéz explicou que a área encerra interesses históricos milenares. Além de ser o ponto de passagem estratégico entre Ásia e Europa, a região concentra recursos naturais finitos, mas vitais: os hidrocarbonetos.
“O controle dos estreitos significa o controle do comércio e do poder militar. Atualmente, vemos o Irã decidido a controlar essas passagens, não para todos, mas para se defender daqueles que o atacaram”, afirmou o professor, destacando que as tensões recentes envolvem uma resposta do Irã a ataques que considera traiçoeiros por parte da política externa dos EUA.
O historiador não poupou críticas à Organização das Nações Unidas (ONU). Para ele, a instituição, criada em 1948 para evitar tragédias humanas, falhou miseravelmente em sua missão original. Fernández apontou uma “seletividade na empatia” do órgão, mencionando que a comoção gerada pela guerra na Ucrânia não se repete da mesma forma com as populações árabes do Sul Global.
“A ONU demonstrou-se completamente incapaz. O que ocorre em Gaza é um genocídio explícito segundo os próprios documentos da organização, mas nada é feito. A ONU sempre foi, historicamente, um instrumento da política externa norte-americana”, disparou. Ele ressaltou ainda que, nas guerras modernas, o civil deixou de ser um “dano colateral” para se tornar o alvo principal, visando pressionar governos através do sofrimento da população.
Fernández traçou um paralelo histórico para explicar o cenário atual, afirmando que o mundo não vive mais uma bipolaridade equilibrada, mas sim uma transição de poder. Segundo o especialista, os EUA estão em um processo de declínio que começou na década de 70, com a crise do petróleo e a derrota no Vietnã.
“Estamos a um passo muito curto de que as coisas saiam dos eixos. De certa forma, já vivemos uma espécie de Terceira Guerra Mundial, com conflitos na Ucrânia, tensões em Taiwan e agora no Irã”, alertou. Ele destacou que o Irã tem surpreendido pela resistência tecnológica, utilizando “soberania digital” (apoio da China e Rússia) para não depender de empresas como Google ou Starlink, o que tem garantido sua sobrevivência diante de bloqueios.
Jorge Cristian Fernández possui bacharelado e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestrado pela Unisinos. É professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde leciona no curso de História. Seu foco de pesquisa concentra-se na Guerra Fria e nos conflitos do século XX, especialmente nas relações entre Estados Unidos e América Latina.







