A 1ª edição do programa Jornal da Top, da Rede Top FM, que em Campo Grande pode ser sintonizada na 88,9 FM, encerrou a semana nesta sexta-feira (27), entrevistando o presidente da Famasul (Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Marcelo Bertoni, que abordou a relevância do agronegócio brasileiro, os desafios que o setor enfrenta, o papel da entidade presidida por ele defesa dos produtores rurais e os impactos de eventos geopolíticos no agro.
“O agronegócio brasileiro segue como um dos principais motores da economia nacional, responsável por cerca de um terço do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no último ano. Apesar da relevância, o setor ainda enfrenta resistência social baseada na desinformação e em críticas ideológicas que desconsideram aspectos técnicos da produção”, pontuou.
Ele destacou ainda a falta de compreensão sobre a eficiência da agricultura tropical brasileira, ressaltando que o país passou, em menos de quatro décadas, de importador a um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, com capacidade de realizar até três safras no mesmo hectare.
“Em Mato Grosso do Sul, a dependência econômica do agro é ainda mais evidente, pois aproximadamente 90% das empresas e cooperativas do Estado têm ligação direta ou indireta com o setor, que impulsiona cadeias como transporte, comércio e serviços. Quando o agro vai mal, toda a economia sente, inclusive o consumidor, com aumento de preços nos supermercados”, afirmou.
Nesse contexto, conforme Marcelo Bertoni, a atuação institucional ganha destaque e a Famasul trabalha na defesa política e legislativa dos produtores rurais, acompanhando projetos e participando de 296 conselhos estaduais para evitar medidas que possam prejudicar o setor. “Já o Senar concentra esforços na formação profissional e qualificação da mão de obra rural, com mais de 250 cursos gratuitos, além de programas sociais e educacionais que buscam aproximar o campo da cidade”, informou.
Entre os desafios externos, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia é visto como uma oportunidade com ressalvas. “Ainda há incertezas quanto à divisão de cotas entre os países do bloco e preocupações com as chamadas ‘salvaguardas de gatilho’, mecanismos europeus que podem limitar exportações brasileiras. Por outro lado, o Brasil também estabeleceu medidas de proteção para produtos nacionais sensíveis”, explicou o líder rural.
No cenário internacional, conforme o presidente da Famasul, os conflitos no Oriente Médio têm gerado impactos diretos nos custos de produção. “O aumento do preço do diesel elevou despesas com transporte e operações agrícolas, enquanto a instabilidade geopolítica afeta o fornecimento de fertilizantes — insumo essencial para a produtividade”, disse.
Atualmente, ele informou que o Brasil importa cerca de 90% dos fertilizantes que utiliza, o que expõe o país a riscos logísticos e geopolíticos. “A situação é agravada por entraves internos, como a falta de regulamentação do gás natural, matéria-prima fundamental para a produção de nitrogenados. Além disso, parte do gás é desperdiçada durante a extração de petróleo, sem aproveitamento industrial”, criticou.
Marcelo Bertoni acrescentou que a crise na cadeia de suprimentos já provoca atrasos na entrega de insumos, aumento de custos de frete e seguro, além de incertezas para os produtores. “Há também preocupação com o mercado externo, já que países como o Irã estão entre os principais compradores do milho brasileiro, especialmente no período da safrinha”, revelou.
Diante desse cenário, o setor reforça a necessidade de planejamento e cautela. “É um momento de paciência para entender como essas variáveis vão impactar a produção e o mercado”, orientou o presidente da Famasul.
Apesar dos desafios, a avaliação dele é de que o agronegócio brasileiro segue competitivo, sustentado por produtividade, tecnologia e práticas sustentáveis. “A principal barreira ainda é a percepção equivocada sobre o setor. O maior mito que precisamos quebrar é de que o agro destrói. Produção e sustentabilidade caminham juntas”, assegurou.
Entre as prioridades para os próximos anos, estão o avanço do seguro rural, a segurança jurídica no campo e a qualificação de jovens para atender às demandas tecnológicas da atividade. “Temos de reconhecer a resiliência do produtor rural e a confiança no trabalho das instituições que atuam na defesa do setor”, concluiu.
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