A política de Mato Grosso do Sul, em sua essência, adora um bom enredo. E se há uma lição que 2014 nos deixou, ela é cristalina: nunca subestime o fator surpresa e, acima de tudo, a capacidade de o eleitorado sul-mato-grossense ditar um segundo turno onde o óbvio parecia reinar.
A virada de Azambuja (2014)
O relato dos bastidores no final do ano de 2013, serve como um poderoso “dejà vu” para o cenário atual. Naquela época, a disputa parecia definida. Delcídio (PT) voava nas pesquisas (estava eleito), e a vaga ao Senado pertencia a Reinaldo Azambuja, que faria uma “chapa branca” entre PSDB e PT.
O que mudou? Aquele papo de bastidores que fez Reinaldo Azambuja repensar a pergunta que foi feita a ele: “é melhor você disputar para o Governo do Estado ou ao Senado?” A virada veio do insight sobre o potencial de voto de rejeição/antipatia aos favoritos, capturando um latente 25% de eleitores que queriam uma alternativa. A história nos provou o acerto: Azambuja foi ao segundo turno, venceu Delcídio e governou por dois mandatos.
A grande moral dessa história não é o nome, mas o método: em MS, a disputa sempre está aberta até o último voto, e o eleitorado, quando instigado, busca o “terceiro caminho” ou a alternativa para forçar um novo jogo.
O que temos para 2026
O cenário de dezembro de 2025 aponta para uma reeleição do Governador Eduardo Riedel (PSDB) com números robustos. Os cenários estimulados do Instituto Ranking Brasil Inteligência o colocam consistentemente na faixa de 40% a 46% das intenções de voto.
No entanto, o sinal de alerta pisca em vermelho, e ele vem de dois lados:
- A somados adversários: A análise dos dados mostra que 40% do eleitorado não quer votar no atual governador (somando a extrema-direita e a extrema-esquerda). Este é o “fantasma de 2014” à espreita. Se em 2014, 25% foi o “caldo de cultivo” para Azambuja, em 2026, 40% é um reservatório gigantesco para polarizar a disputa e empurrar para um segundo turno.
- O fator apatia (22% de Abstenção): Este é o ponto mais perigoso. O dado de que 22% dos entrevistados preferem pagar multa a votar em 2026 revela uma profunda crise de credibilidade na política. Esses eleitores, que “não acreditam mais”, são o maior fator de imprevisibilidade. Eles não estão no campo da rejeição ativa, mas no campo da desistência. Se essa taxa de abstenção for alta, ela distorce qualquer previsão, mas se uma alternativa forte for capaz de tirar parte desse eleitorado da inércia, o jogo muda instantaneamente.
A estratégia da Esquerda
O posicionamento do ex-deputado federal Fábio Trad (PT), encampando uma candidatura ideológica, é o segundo pilar que mantém a eleição aberta. Ao transformar a disputa em uma batalha entre o “campo progressista” e a “extrema-direita sórdida e elitista”, o PT busca polarizar a narrativa e se consolidar como o principal polo de oposição a Riedel.
Nos cenários estimulados, Fábio Trad consolida o segundo lugar, variando entre 15% e 18% das intenções de voto (isso sem dizer que era pré-candidato). Isso o coloca como a ameaça mais consistente ao primeiro turno de Riedel.
O grande beneficiado desta polarização ideológica é, ironicamente, o candidato que conseguir se consolidar como o principal opositor. Se a Direita em MS continuar numa disputa interminável e fragmentada (vide as diversas candidaturas na pesquisa, como Catan, Pollon, Jaime Valler, Renato Gomes, Beto Figueiró), o voto antipatia ao governo se divide, mas o voto da Esquerda se concentra em Fábio Trad, fortalecendo sua posição no segundo lugar e tornando o 2º turno uma ameaça real.
Fator interessante
A queda da rejeição de Lula: Queda constante na desaprovação: a desaprovação de Lula em MS despencou de 70% (março) para 50,2% (pesquisa mais recente).
Crescimento da aprovação: Sua aprovação saltou de 28% para 46,4% no mesmo período. Melhora na avaliação da gestão: a avaliação de gestão “Ruim/Péssima” caiu de 55,8% para 35,8%, enquanto a “Boa/Ótima” subiu de 24,6% para 34,6%. Isso deve beneficiar ainda mais o Fábio Trad.
Conclusão
As pesquisas mostram que Eduardo Riedel está perto da vitória no primeiro turno. Contudo, em Mato Grosso do Sul, “estar perto” não significa “estar lá”.
- A soma dos adversários (40%) é um empate técnico com o voto consolidado de Riedel (40-44%).
- A apatia (22% de não-voto) é uma bomba-relógio.
- A polarização da Esquerda em torno de Fábio Trad é um movimento estratégico.
Se os adversários de Riedel conseguirem evitar a fragmentação e se um nome da Extrema-Direita de oposição (que não seja Riedel) conseguir capturar parte daquele grande bloco de 40%, a eleição de 2026 em Mato Grosso do Sul repetirá o enredo de 2014: será decidida no segundo turno.
A eleição está longe de ter um vencedor definido. Está, sim, totalmente aberta e dependente de como os 40% de insatisfeitos e os 22% de apáticos se comportarão nos próximos meses.
Por Antonio Ueno – Cientista Político






