Ela acompanha pacientes que precisam recuperar peso, força, autonomia e, muitas vezes, o próprio prazer de viver. Há dez anos atuando em unidades de terapia intensiva e cardiointensiva, a nutricionista clínica Nicole Ramos aprendeu, na prática, que a nutrição está longe de ser coadjuvante na recuperação: a nutrição é o próprio tratamento.
Formada pela Universidade Anhanguera Uniderp em 2014 e especialista em Terapia Intensiva pela residência multiprofissional no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, Nicole também vivenciou, na pele, o impacto da alimentação na reabilitação.
“Minha opção pela nutrição hospitalar começou com a minha própria internação, aos 15 anos. Naquela época, vivíamos uma fase que parece estar voltando agora: a moda de ser excessivamente magra. Eu fazia dietas restritivas, comia pouco e de forma pouco saudável, até que fui internada com pneumonia e anemia. No próprio Hospital Regional, onde hoje atuo, comecei a comer bem e a entender esse processo”, afirmou.
Do trauma à vocação
A melhora clínica, associada à alimentação adequada, foi o ponto de virada. Durante a graduação, Nicole enfrentou um novo desafio: após um acidente de moto, ficou em coma e foi internada na Santa Casa de Campo Grande. O estado era grave; precisou de sonda alimentar e, após 15 dias, recebeu alta com o desafio de reaprender a andar, falar e se alimentar.
“Não fiquei com medo do hospital. Pelo contrário, voltei a andar de moto e decidi: ‘É isso que eu quero. Quero trabalhar com quem está em estado crítico’”, relembra.
Nos últimos anos, a nutricionista tem acompanhado pacientes e famílias oferecendo clareza e segurança. Com base nessa experiência, desenvolveu um método próprio, estruturado e adaptado à realidade de cada indivíduo.
“A nutrição é um tratamento para recuperar o paciente. Na UTI, perde-se muito peso e massa muscular, principalmente sob ventilação mecânica — o paciente pode perder até um quilo de massa muscular por dia. Uma nutrição adequada interfere diretamente na respiração, ajudando-o a sair mais rápido do ventilador e melhorando sua mobilidade para a alta”, pontuou.
O trabalho multidisciplinar
Dentro de um Centro de Terapia Intensiva (CTI), a nutrição é fundamental. Para quem não conhece a rotina, o trabalho pode ser pouco compreendido; muitos questionam, inclusive, como o paciente se alimenta estando entubado.
“O trabalho vai muito além. Fazemos uma avaliação nutricional completa, cruzando exames, medicações prescritas e o quadro clínico. Trabalhamos em conjunto com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, dentistas e fonoaudiólogos para determinar a melhor estratégia: se o paciente comerá pela boca, por sonda ou se precisará de nutrição parenteral (na veia)”, ressaltou.
Antes de prescrever o tratamento, Nicole observa detalhes funcionais: a forma de caminhar, a força ao se levantar e o nível de alerta. O objetivo não é apenas calcular calorias, mas integrar dados laboratoriais ao histórico hospitalar e à rotina alimentar, entendendo o que o corpo precisa para retomar a autonomia.
“A alimentação é a base da vida. Precisamos de energia para tudo: trabalhar, estudar, cuidar dos outros. Em tempos de excesso de informações na internet, é preciso buscar profissionais que trabalhem com evidências científicas, de forma multidisciplinar e, acima de tudo, com equilíbrio alimentar”, finalizou.





