O ano era 1976. Naquele pedaço de chão que na época ainda era o Mato Grosso, o destino de dois garrafões de vinho foi selado em um campo de terra batida no município de Itaporã.
O cenário era o sítio do Seu Dal, em Santa Terezinha, um ponto estratégico entre as terras do Velho Orélio e do Seu Lin, a meros mil metros da propriedade do meu pai, o lendário Manoel da Curva. Ali, o futebol não era apenas esporte; era uma questão de honra, medida em litros de vinho e suor.
O desafio
O embate era de gigantes: de um lado, o time do Carumbé (os caras eram bons, não se pode negar). Do outro, os donos da casa, o Santa Terezinha (onde só jogavam os melhores).
O prêmio? Nada de aplicativos de apostas ou cifras milionárias. O troféu eram dois garrafões de vinho. Não me recordo se era Dom Bosco, Capelinha ou Del Rei, mas lembro do efeito: aquilo tinha mais teor alcoólico que juízo, e quem vencesse levaria as duas preciosidades para casa.
Os guardiões da única bola
Eu estava lá, na linha de frente da logística. Eu, o “Japonês Calabresa, foi o diabo que te fez”, acompanhado de uma trupe de elite de gandulas: Pedro do Dal (que, justiça seja feita, já tinha me dado uns sopapos); Preto do Ramuntunico; Tita do Seu Cirço e Nego do João Ozório.
Nossa missão era vital. Só tínhamos uma bola. Se ela caísse no meio das guaxumbas ou fosse parar entre as patas das vacas no pasto vizinho, o jogo esfriava. Tínhamos que ser rápidos, driblando o gado e os espinhos para garantir que a partida não parasse.
O Juiz de Montese
Para garantir a “ordem”, trouxeram um juiz de fora, lá de Montese. Diziam ser imparcial, mas no calor da poeira, a mãe dele era a pessoa mais citada em campo. E “o pau torou”. O jogo pegou fogo entre empurrões, gritos e a poeira que subia a cada dividida. No apito final, a glória: Santa Terezinha 2, Carumbé 0.
O vinho que ninguém bebeu
A vitória estava garantida, mas a ética esportiva do Carumbé ficou no vestiário (que, no caso, era a sombra de alguma árvore). Os perdedores se recusaram a entregar os garrafões. O que se seguiu foi uma briga generalizada digna de filme de faroeste pantaneiro.
No meio do “rebu”, o destino foi cruel: os dois garrafões foram ao chão. O vidro estraçalhou, e o vinho — aquele líquido precioso que deixava todo mundo doidão — foi bebido pela terra batida do sítio do Seu Dal. Ninguém tomou nada.
O batismo no Sardinha
Com o fim trágico da celebração alcoólica e o corpo coberto de poeira e adrenalina, restou-nos a pureza. Eu e meus amigos — Pedro, Preto, Tita e Nego — deixamos a confusão para trás e corremos para o Córrego Sardinha.
Lá, entre as águas geladas e as risadas, lavamos a alma. Se o vinho se perdeu, a memória ficou guardada. O Santa Terezinha ganhou, a infância foi maravilhosa e, no fim das contas, a gente não precisava de álcool para se sentir vivo.
“Tempos bons? Acredito que sim… Tive uma infância cheia de emoções!”
Por Antonio Ueno (Cientista Político)






