Há momentos em que a resiliência de uma cidade é testada pela dureza dos fatos. Hoje, ao caminharmos pelas ruas de Campo Grande, o sentimento não é apenas de cansaço, mas de uma lucidez amarga: “Perdemos”.
Onde estão? O vácuo de fiscalização permitiu que o descaso vencesse a cidadania. É preciso coragem para admitir que, enquanto sociedade organizada, fomos temporariamente superados pela ineficiência e pela omissão das instituições que deveriam servir de escudo para o povo.
O que perdemos?
Reconhecer a derrota não é desistir, é fazer um diagnóstico honesto para que o erro não se repita. Sob a administração de Adriane Lopes, o campo-grandense acumulou prejuízos históricos:
Perdemos na Justiça Fiscal: Enquanto o cidadão comum foi sufocado por aumentos de IPTU de até 396% e multas de radares “sem contrato”, a bondade tributária foi seletiva: Para a prefeita, a Taxa de Lixo caiu 41%. O privilégio tem endereço certo.
Perdemos na dignidade da Saúde: Como aceitar a falta de dipirona nos postos e o questionamento sobre o paradeiro de R$ 156 milhões do SUS? O Conselho Municipal de Saúde busca respostas.
Perdemos para a “Folha Secreta” que continua: É o escárnio final. Enquanto a cidade definha, secretário da prefeita recebeu vencimentos na casa dos R$ 91 mil em novembro de 2025. A abundância dos gabinetes é financiada pela escassez nos bairros.
Perdemos no direito de ir e vir: Um transporte coletivo sucateado que exigiu intervenção judicial e uma iluminação pública (COSIP) sob investigação de R$ 110 milhões.
Perdemos na empatia: O abandono das mães atípicas e o descaso com as enchentes e o mato alto revelam uma gestão que governa para as Redes Sociais, mas ignora a vida real.
Não estamos sozinhos. Instituições deveriam ser mais enérgicas e mais atuantes: TCE, MPE, MPF, Câmara Municipal, Controladoria Geral do Município e Tribunal de Justiça.
2026: O ano do acerto de contas
A conclusão de que “Perdemos” em 2025 deve ser o combustível para a retomada. O ano de 2026 não será apenas mais uma eleição, mas um filtro rigoroso contra a impunidade e a desinformação.
Memória Ativa: Quem se omitiu diante da “Folha Secreta”? Quem calou sobre a falta de remédios? Os candidatos neste ano eleitoral devem ser confrontados com seu silêncio de hoje.
Verdade contra Fake News: Contra o marketing que tenta esconder buracos e maquiagem de gestão, a arma será a checagem dos fatos e a vivência real nos bairros.
Fiscalização Coletiva: O eleitor precisa entender que ele é o verdadeiro fiscal. Não basta votar; é preciso ocupar os espaços e cobrar as instituições que hoje dormem.
A retomada
Perdemos batalhas importantes para a arrogância e para o uso indevido da máquina pública. Mas essa derrota só se tornará definitiva se permitirmos que a nossa capacidade de indignação seja enterrada pela apatia.
O barulho das urnas em 2026 precisa ser o reflexo de uma sociedade que aprendeu, da maneira mais dura, que a omissão custa caro. Campo Grande tem pressa em retomar sua dignidade. Assumimos a derrota de hoje para construir a vitória de amanhã.
A frase “quando o povo se cala, a sociedade geme. A raiz bíblica encontra-se em Provérbios 29:2: “Quando os justos prosperam, o povo se alegra; quando os ímpios governam, o povo geme”.
“A cidadania não é um ato que se exerce apenas de quatro em quatro anos; é uma vigilância diária. Quando o povo recua, o abuso avança.”
Por Antonio Ueno – Cientista político






