Primórdios da medicina em Campo Grande

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Nos velhos tempos do povoado de Campo Grande, hoje capital do Mato Grosso do Sul, os moradores acometidos por alguma doença tinham à sua disposição somente os saberes tradicionais da medicina popular. Essa condição persistiu até março de 1914, quando chegaram à vila quase os militares do Exército, membros do 5º Regimento de Artilharia Montada, até então instalados na vizinha vila de Aquidauana, iniciando um novo tempo na medicina local, graças aos préstimos do médico oficial Júlio Mario de Castro Pinto. Naquele mesmo ano, seria inaugurada a Estrada de Ferro Itapura Corumbá, marcando o início de uma época de progresso na região.

Desse modo, nas quatro décadas precedentes, a população local resolvia seus problemas de saúde da forma possível, recorrendo aos benzedores e aos conhecedores dos remédios naturais. Nos primeiros anos, José Antônio Pereira, fundador do arraial, atendia quem lhe procurasse com algum problema de saúde, pois conhecia o bom uso de plantas e ervas. Na bagagem da comitiva, que aqui chegou em agosto de 1875, José Antônio trouxe consigo recursos naturais e remédios homeopáticos que eram indicados a quem lhe recorresse com alguma dor, febre ou ferimento, sempre acompanhados pela reverência aos tradicionais benzedeiros então existentes nas diversas regiões do país.

Por volta de 1887, vindo do distrito de São José de Herculânea (Coxim), Joaquim Vieira de Almeida fixou residência em Campo Grande, onde abriu um armazém para vender ferragens e miudezas. Membro de grande família do Mato Grosso, o comerciante ficou na história local como generoso redator de atas, contratos, ofícios, entre outros documentos de interesse público. Como não havia nenhum médico entre os campo-grandenses, sendo ele um experiente boticário, ampliou o seu negócio, montando um armário abastecido com alguns remédios e fórmulas homeopáticas.

João Evangelista Vieira de Almeida, filho do ilustre boticário, após concluir os estudos secundários em São Paulo, retornou para Campo Grande, onde trabalhou como contador, por vários anos, assim como exerceu o magistério em diferentes colégios. Durante anos, ele preservou as cópias de documentos redigidos ou transcritos pelo seu pai, inclusive um caderno manuscrito com receitas da medicina popular, descrição de doenças e recomendações uteis aos doentes. Material esse que, nos anos 1930, foi doado para compor o acervo da primeira Biblioteca Pública de Campo Grande.

Ficou na memória da terra que o caderno de receitas médicas usado pelo culto Joaquim Vieira era cópia transcrita do famoso “Formulário e Guia Médico”, de autoria do médico polonês Chernoviz, que residiu no Brasil em meados do século XIX. Passado o tempo, sabe-se que o referido formulário circulou pelos quatro anos do Brasil. Ao refletir sobre essas raízes da medicina de Campo Grande, é possível reencontrar esses fragmentos da história dos saberes populares, que hoje despertam o interesse em torno das práticas culturais que precederam ao progresso científico e tecnológico.

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