Ao abrir as redes sociais de políticos, jornalistas e influenciadores do Mato Grosso do Sul, a sensação é de que vivemos em um anexo de Brasília ou em uma filial de Washington. O debate público foi sequestrado por temas que, embora relevantes, servem como uma cortina de fumaça para a nossa realidade imediata.
Estamos vendo uma fuga em massa da responsabilidade local. É mais fácil opinar sobre taxas de juros americanas, a guerra na Ucrânia, as opiniões controvérsias de Donald Trump, a prisão de Bolsonaro, do que debater a realidade do nosso estado.
O Fascínio pelo que está longe
Existe um fenômeno curioso em nosso estado: a “Síndrome do Comentarista Distante”.
- Emite-se nota oficial de repúdio sobre a violência nos morros do Rio de Janeiro.
- Discute-se apaixonadamente o futebol do eixo Rio-SP.
- Debate-se o meio ambiente global enquanto o nosso quintal arde.
- Emite-se nota oficial de repúdio pela prisão do Bolsonaro.
Enquanto os “especialistas de internet” gastam caracteres e vídeos discutindo o cenário “de fora” o Mato Grosso do Sul sangra em silêncio. Essa postura levanta a questão inevitável: estão apenas fora de foco ou estão, deliberadamente, correndo dos problemas?
Mais do mesmo
Temos feridas abertas há mais de quatro décadas que são tratadas com curativos temporários ou, pior, com a indiferença. A lista de demandas esquecidas é extensa e dolorosa:
- Saúde a UTI: A falta crônica de médicos, a escassez de remédios básicos nos postos, exames e a regionalização da saúde.
- Infraestrutura Colapsada: Rodovias estaduais e federais que são verdadeiras armadilhas mortais, repletas de buracos que causam prejuízos e tiram vidas.
- Crise Humanitária e Segurança: Enquanto olhamos para a violência no Rio, nossas fronteiras continuam sendo peneiras para o tráfico de drogas e armas que abastecem o país inteiro.
- A Tragédia Indígena: Assistimos passivamente a conflitos por terras, assassinatos de indígenas e comunidades inteiras sem acesso a água potável, enquanto a classe política prefere não tocar no assunto para não perder votos de nicho.
- Corrupção e Má Gestão: Escândalos que se repetem, má distribuição de renda e uma administração que muitas vezes parece governar apenas para alguns.
- Feminicídio: O estado segue no topo de rankings vergonhosos de violência contra a mulher, um problema real que exige muito mais do que posts de “luto” no Instagram.
Os discursos contraditórios
É no mínimo contraditório — para não dizer hipócrita — ver a indignação seletiva de nossos representantes. Faz-se barulho por prisões políticas em Brasília, mas silencia-se sobre assassinato de indígenas da nossa fronteira. Comenta-se sobre o rio Amazonas, mas esquece-se da preservação e dos ciclos de queimadas no nosso Pantanal.
O cidadão sul-mato-grossense não vive na Ucrânia nem na Casa Branca. Ele vive aqui, onde o asfalto cede, onde o remédio falta e onde a segurança falha.
Hora de “Voltar para Casa”
Não precisamos de mais comentaristas de política fora do eixo. Precisamos de gestores estaduais. Precisamos de jornalismo que cobre o buraco da rua com a mesma ênfase que cobre a prisão do Mito. Precisamos de influenciadores que usem seu alcance para cobrar saneamento básico, e não apenas para gerar engajamento com polêmicas nacionais.
Fica a dica e o convite à reflexão: Que tal discutirmos os nossos problemas? Antes de tentar consertar o mundo, seria de bom tom começar consertando o Mato Grosso do Sul.





