No jargão militar, a “Unidade de Comando” é um conceito sagrado. A lógica é evitar o caos: se dois generais emitem ordens distintas, o soldado no front perde o rumo e a estratégia desmorona. No Partido Liberal (PL) de Mato Grosso do Sul, no entanto, a tropa não padece com a falta de líderes, mas sim com o excesso deles.
A filiação de Reinaldo Azambuja, em 21 de setembro de 2025, foi vista como a “jogada de mestre” de Valdemar da Costa Neto. Após três décadas de PSDB, o ex-governador chegou à legenda com a missão de oferecer estrutura, capilaridade e o cobiçado “voto de centro”. Contudo, o que se observa desde então é um processo complicado e difícil de se entender.
O “Bilhete” da Papudinha
A política sul-mato-grossense foi sacudida no último sábado (28) por um manuscrito. Mesmo sob custódia na Papudinha, em Brasília, o ex-presidente Jair Bolsonaro demonstrou que seu silêncio é, na verdade, ensurdecedor. Por meio de um bilhete entregue à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, ele foi direto: Marcos Pollon é o seu pré-candidato ao Senado.
O anúncio soou como um golpe seco na estratégia da executiva estadual. Azambuja, que assumiu o comando do PL-MS com o aval da nacional, defendia que a definição das candidaturas passaria por critérios técnicos e “pesquisas qualitativas”. Com um bilhete, Bolsonaro atropelou as estatísticas com a ideologia.
“A pedido dele (Bolsonaro), faço esta postagem… O deputado Marcos Pollon é o nosso candidato ao Senado Federal por Mato Grosso do Sul”, escreveu Michelle, selando o posicionamento da ala mais conservadora do partido.
A fragmentação do poder
A pergunta que ecoa nos bastidores é: quem detém, de fato, a última palavra? O cenário atual apresenta quatro polos de influência que raramente convergem:
- Reinaldo Azambuja: Detém a chave do cofre partidário estadual e a confiança de Valdemar Costa Neto. Representa o pragmatismo estratégico que busca o poder através da estrutura política tradicional.
- Jair Bolsonaro: Detém o capital simbólico e a lealdade da militância. Mesmo detido, exerce um comando moral absoluto sobre a base.
- A “Bancada dos Rebeldes”: Liderada por Marcos Pollon e João Henrique Catan — que sequer prestigiaram a posse de Azambuja —, o grupo ignora a hierarquia local em nome de uma lealdade direta ao “Capitão”.
- Capitão Contar: Filiado diretamente pela executiva nacional, ignora a ascendência de Azambuja e surge como o terceiro elemento em uma disputa de duas vagas que parece pequena demais para tantos protagonistas.
- Gianne Nogueira: A vice-prefeita de Dourados, já reiterou que é pré-candidata ao Senado Federal. Ela afirmou que comunicou suas intenções a Azambuja. Gianne afirma que tem o apoio de Jair Bolsonaro.
O Tabuleiro de 2026
O que se assiste no PL sul-mato-grossense é o choque direto entre a política de resultados e a política de fidelidade dogmática. Enquanto Azambuja joga xadrez, Bolsonaro opera como líder de massas.
O risco inerente a esse racha é matemático: em uma eleição majoritária, a divisão é o caminho mais curto para a derrota. Se o partido chegar a 2026 fragmentado entre “azambujistas” e “bolsonaristas raiz”, o único beneficiado será a oposição.
Para o PL de Mato Grosso do Sul, o desafio imediato não é vencer os adversários nas urnas, mas decidir — antes que o tempo se esgote — quem realmente segura o leme.
A frase
“Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível.” . Sun Tzu
Por Antonio Ueno – Ciêntista Político





