SISEP e o “Ministério da Corrupção” de Justo Veríssimo

Ilustrativo feito por IA

Na década de 1980, o genial Chico Anysio parava o Brasil com o deputado fictício, Justo Veríssimo. O parlamentar, líder do “Partido Sinceramente Hipócrita”, defendia a criação do “Ministério da Corrupção” para “organizar a roubalheira” no país. O símbolo do órgão? Uma pulga, bicho que suga o sangue do pobre enquanto ele dorme.

Mais de quarenta anos depois, a ficção perdeu o emprego para a realidade em Mato Grosso do Sul. A vida imita a arte com tamanha perfeição que a Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) de Campo Grande bem que poderia atualizar sua fachada para “Secretaria Oficial da Corrxsyruxxggxxão”. Afinal, se o descaramento virou método, por que não oficializar o crachá?

A revolta do asfalto

Enquanto o cidadão de Campo Grande destrói a suspensão do carro em crateras lunares, os bastidores da Sisep ostentam o glamour do dinheiro fácil. A Operação Buraco Sem Fim, deflagrada pelo Ministério Público (MPMS) e pelo Gecoc neste mês de maio de 2026, é o ápice do deboche. O ex-secretário e seus comparsas foram alvos de prisão por um esquema que evaporou mais de R$ 113 milhões entre 2018 e 2025.

O modus operandi é digno de roteiro do programa de humor da Rede Globo: fraudes em medições de asfalto e pagamentos indevidos. O resultado da operação? Centenas de milhares de reais em notas vivas apreendidas e exonerações em massa. Isso sem contar o esquema anterior, ironicamente batizado de Operação Apagar das Luzes em dezembro de 2025, que mirou os desvios da Cosip (iluminação pública).

O requinte da ironia está nos “aditivos” contratuais. Em Campo Grande, aditiva-se o contrato antes mesmo de o desvio terminar. É de rir para não chorar. A lentidão dos processos funciona como um bálsamo para os acusados. Como as investigações arrastam-se a passos de tartaruga, as empresas investigadas continuam operando e faturando livremente no município.

Sem punição

A corrupção na Sisep não é um acidente de percurso; é a institucionalização do desvio público, escancarada quando uma secretaria acumula escândalos sequenciais — do tapa-buracos à iluminação pública — e movimenta milhões de reais em fraudes.

A lentidão em romper contratos com empresas sob suspeita crônica cria uma sensação de impunidade que alimenta o cinismo. O cidadão perde duas vezes: paga por um serviço que não recebe e financia o enriquecimento ilícito de uma elite burocrática.

E o povo?

Se a Sisep arde em escândalos e roubalheira, o que fazem os nossos nobres representantes políticos? Eles se reúnem, é claro. Mas não espere indignação.

Enquanto a cidade sangra na infraestrutura e na moralidade, o Executivo e o Legislativo parecem blindados em uma realidade paralela, onde o interesse público é mero detalhe. A corrupção na Sisep é real, segundo o MPMS.

Justo Veríssimo faria escola em Campo Grande, diante de tanto cinismo e de uma cidade abandonada à própria sorte…

A frase: “Corrupção sim, mas dentro da maior honestidade” .

Por Antonio Ueno – Cientista político

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