Como a Campo Grande de hoje será lembrada no futuro?

Foto IA

“Eles vão falar dessa guerra por mil anos.”Aquiles “Daqui a mil anos, o pó dos nossos ossos já vai ter virado pó.”Heitor “Mas nossos nomes viverão.”Aquiles

No clássico diálogo do filme Troia, a imortalidade de um nome é o que resta para a história. Diante disso, convido o leitor a uma reflexão profunda sobre o nosso próprio chão: como a atual Campo Grande será lembrada no futuro?

Quando folheamos os livros da história política da nossa capital, as memórias ganham contornos claros de realizações. Lembramo-nos da administração responsável de Levy Dias e seu emblemático projeto Salve; recordamos a firmeza e o legado de Lúdio Coelho e André Puccinelli; trazemos à mente a beleza dos ipês plantados e as grandes avenidas projetadas por Nelsinho Trad, que entregou mais de mil obras à nossa gente. E a atual gestão? O que deixará para a posteridade além do rastro de escândalos e do abandono?

“Socorro!!! Por favor, alguém nos ajude!” Este não é apenas um desabafo retórico, mas o grito de socorro desesperado que ecoa diariamente pelas ruas e bairros da nossa cidade. Como cientista político, meu dever é analisar friamente os dados e as estruturas de poder. Mas, como cidadão que respira este ar e caminha por estas ruas, o que sinto no peito é uma revolta profunda e incontrolável.

O enredo do caos

A nossa gente tornou-se refém do medo e da tristeza. É o medo de transitar por ruas completamente às escuras devido a uma taxa de iluminação pública (Cosip) vergonhosamente superfaturada. É a tristeza e a indignação excruciante de ver idosos e crianças mofando nos corredores das UPAs sem o mínimo de dignidade humana. Campo Grande foi apequenada, transformada em um balcão de negócios imoral e sem escrúpulos.

Para se ter uma ideia do tamanho do assalto aos cofres públicos, os valores investigados já ultrapassam a impressionante marca de R$ 1 bilhão. É revoltante constatar que a engenharia local operou o milagre macabro de criar o “asfalto de papel”, uma película que derrete na primeira chuva. A Operação Buraco Sem Fim  que investiga o possível desvio de R$ 113 milhões em obras fantasmas que utilizavam, literalmente, lixo na pavimentação.

Enquanto a prefeitura assinava aditivos contratuais suspeitos de R$ 11,8 milhões, a polícia apreendia R$ 429 mil em espécie na casa de investigados. Ver o asfalto sumir na enxurrada é ver a corrupção materializada na nossa cara. E o pior: cadê os poderosos presos? A justiça tardia é como um soco diário no estômago do trabalhador.

Contudo, nada queima mais de indignação do que o colapso criminoso da nossa saúde pública. Falta o básico do básico — gaze, esparadrapo e dipirona na UPA Leblon —, enquanto o Tribunal de Contas da União (TCU) investiga um rombo de R$ 580 milhões no Fundo Municipal de Saúde. O ápice da crueldade humana atende pelo nome de Operação OncoJuris: um esquema asqueroso de R$ 78 milhões focado em desviar verbas destinadas a medicamentos oncológicos. Desviar de finalidade dinheiro do remédio de quem luta pela vida contra o câncer não é apenas um crime financeiro; é um atentado humanitário que brada aos céus por punição imediata!

Para completar o deboche com a cara do contribuinte, a licitação do novo Hospital Municipal terminou deserta. Nenhuma empresa séria quis participar. Fomos transformados em um paciente terminal abandonado à própria sorte por uma gestão desastrosa, arrogante e cega para a realidade.

A ofensiva contra a democracia

Até a nossa democracia, o pilar sagrado da cidadania, foi violentada. A Operação Suffragium, deflagrada pela Polícia Federal, escancarou uma estrutura criminosa em formato de pirâmide montada para a compra sistemática de votos na campanha de 2024. Tratou-se de uma fraude amplamente profissionalizada, com a distribuição fracionada de dinheiro via Pix na véspera e até no próprio dia da eleição, tudo coordenado por assessores íntimos e servidores comissionados. O Ministério Público Eleitoral já recorreu da absolvição da chapa, pois é juridicamente difícil de acreditar que as principais beneficiárias não soubessem desse verdadeiro derrame de dinheiro.

Esse jogo sujo e rasteiro explica, inclusive, o erro crasso das pesquisas eleitorais na época. Como a ciência estatística pode prever se o voto é comprado na calçada, na calada da noite e até no dia da eleição? O eleitor vulnerável, asfixiado pela pobreza que a própria má gestão gera, aceita o suborno por extrema necessidade. Depois, esconde a verdade do pesquisador por vergonha e vota coagido. Esse processo criminoso desidrata a soberania popular e destrói o futuro da cidade.

A verdadeira esperança

Mas é exatamente aqui, onde a podridão se expõe por inteiro, que a verdadeira esperança renasce com força total! A Polícia Federal e o Ministério Público estão fazendo a sua parte, respondendo ao clamor público e passando a nossa história a limpo. O cerco está se fechando e os criminosos políticos já não têm mais onde se esconder.

A grande virada histórica está, finalmente, em nossas mãos. Como ainda estamos nos dois primeiros anos do mandato, se a chapa for cassada por essa fraude eleitoral escandalosa, a lei exige expressamente a convocação de novas eleições. Isso acende uma luz gigantesca no fim do túnel! Não devemos encarar este momento como uma crise institucional, mas sim como a oportunidade de ouro que temos para tirar Campo Grande, literalmente, do buraco.

Adaptando a célebre máxima de Santo Agostinho: errar é humano, mas persistir no erro seria diabólico. Fomos enganados por mentiras sistemáticas no passado, mas agora os fatos e as provas estão escancarados diante de nós. Neste cenário político de 2026, aceitar que o nosso futuro, a dignidade dos nossos filhos e a saúde dos nossos pais valham um Pix de cem reais seria assinar a nossa própria sentença de miséria definitiva.

O voto consciente é a nossa maior e mais potente arma de auditoria. A fiscalização não é um evento que ocorre de quatro em quatro anos; é um dever cívico e diário. Temos ferramentas poderosas ao nosso lado: a Lei da Ficha Limpa, os canais de denúncia do Fala.BR e a atuação firme do Ministério Público para apontar cada aditivo suspeito e cada desmando.

A Polícia Federal e os órgãos de controle já aceitaram o desafio e estão investigando a fundo. Agora, cabe a cada um de nós o papel principal e insubstituível. Lembrem-se sempre: não basta somente cobrar, tem que participar! A esperança verdadeira é aquela que se move, que vence o medo e dissipa a escuridão. Vamos juntos, com coragem, indignação produtiva e cabeça erguida, resgatar a dignidade e o orgulho da nossa querida capital!

Por Antonio Ueno, Cientista Político

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