Qualquer semelhança é mera coincidência…

Foto Ia

Está difícil escrever sobre política nestes tempos. Hoje em dia, dá um frio na espinha só de pensar em criticar uma planilha de prefeitura ou abrir o Diário Oficial. Falar sobre aditivos contratuais que brotam do nada, taxas criativas e impostos que se alastram como uma praga dá medo — e uma azia terrível. Por isso, para preservar minha integridade física, jurídica e o meu fígado, decidi que hoje não falarei do presente.

Esqueçam o noticiário local. Vamos fazer uma viagem no tempo, um mergulho na história antiga: a perseguição ao povo judeu no Egito dos Faraós. Qualquer semelhança com o seu carnê do IPTU, com a buraqueira da sua rua ou com o cinismo governamental é mera, puríssima e revoltante coincidência.

O fato é que o deboche administrativo tem DNA milenar. Quando uma gestão perde a seriedade e vira motivo de chacota, o diagnóstico é universal, seja no Cairo de 1300 a.C. ou em qualquer capital brasileira. Tudo começa na arrogância da comunicação. É aquela liderança que adota um tom de deboche para responder a cobranças legítimas, quase um “está achando ruim o preço do trigo? Vá reclamar com o deus Rá!”.

Para piorar, as decisões importantes são tomadas às escuras, gerando relatórios financeiros mais difíceis de decifrar do que hieróglifos em tumba lacrada. No final, o que temos é o clássico sistema de dois pesos e duas medidas: regras e sacrifícios rígidos para a população, lagosta e banquetes para a corte, tudo maquiado por uma incompetência que responde a erros primários com desculpas esfarrapadas.

Se o paralelo parece exagero, olhemos para o bolso. No Egito Antigo, os Faraós cobravam pesados tributos que chegavam a 20% da produção. Havia fiscais — os escribas da época — que entravam na cozinha dos súditos para medir até o uso do óleo de cozinha. Gastou demais? Tome taxa. Parecia o cúmulo do absurdo fiscal, mas a modernidade conseguiu superar o Faraó.

Hoje, as gestões aprenderam a taxar a renda, o consumo, a propriedade e, se bobear, o oxigênio. Enquanto o imposto do passado financiava monumentos eternos, hoje, na teoria, deveria retornar em serviços públicos. Na prática, financia supersalários e viagens para Dubai. Dá quase saudade dos 20% do Faraó: as pirâmides pelo menos continuam de pé há quatro mil anos, enquanto o asfalto da nossa rua não dura a primeira chuva.

Essa farra sempre andou de mãos dadas com a corrupção sistêmica. Quem acha que desvio de verba nasceu ontem precisa conhecer o “Tebasgate”, escândalo em que funcionários do alto escalão do Egito Antigo foram pegos acobertando o roubo de joias de túmulos reais. O desfecho foi que os figurões saíram impunes e o povo pagou o pato. A corrupção apenas se modernizou, migrando para fraudes em licitações e desvios digitais, blindada por decisões que chegam tarde demais.

Mas o ápice da crueldade estatal está no trágico episódio bíblico do “tijolo sem palha”. Temendo o crescimento dos israelitas, o Faraó decidiu moer a dignidade daquele povo. Quando Moisés pediu libertação para que o povo pudesse adorar a Deus, a resposta do governante foi o puro suco do cinismo: acusou-os de preguiça e cortou o fornecimento de palha, ingrediente essencial para fazer os tijolos. A partir dali, os trabalhadores tinham que recolher a própria palha nos campos, mas com uma condição sádica: a meta diária de entrega dos tijolos permanecia exatamente a mesma.

Essa opressão desmedida foi o estopim que trouxe as dez pragas sobre o Egito. A ganância e a falta de empatia do Estado sempre cobram o seu preço. O problema é que a história teima em morder a própria cauda. Esse carrossel de taxas abusivas, promessas vazias, aditivos imorais e aumentos absurdos de IPTU continua girando. É de chorar de raiva ao perceber que o “tijolo sem palha” apenas mudou de nome, mas o trabalhador atual continua sendo obrigado a se desdobrar para bater a meta e pagar a conta todo santo mês.

É, meus amigos leitores… e olha que eu nem falando do Egito!

Por: Antonio Ueno – Cientista Político

Facebook
Twitter
WhatsApp

Leia Também